Fotos: Freepik. Divulgação e Patrício Rocha
Por Lis Lemos – UFPB | Um estudo coordenado por pesquisadores de cinco universidades diferentes, incluindo a Universidade Federal da Paraíba, analisou como fatores geopolíticos, econômicos e científicos influenciam o destino dos holótipos de mamíferos. Holótipo é o exemplar oficialmente escolhido para representar uma nova espécie quando ela é descrita pela primeira vez.
Os autores analisaram 1.116 espécies de mamíferos descritas entre 1990 e 2025, comparando o local onde cada espécie foi descoberta com o museu ou coleção científica onde seu holótipo está armazenado. Os pesquisadores também cruzaram dados científicos, econômicos e históricos dos países para entender os fatores associados à “exportação” desses espécimes.
Essas espécies foram descritas em 105 países, mas cerca de 95% delas foram descobertas em países do Sul Global, principalmente em regiões tropicais como Brasil, Madagascar, Indonésia, Peru, China, entre outros países considerados megadiversos.
O professor Mário Moura, do departamento de Sistemática e Ecologia da UFPB, é um dos pesquisadores envolvidos e afirma que o Brasil foi o país com o maior número de novas espécies de mamíferos descritas no período analisado, com 133 novas espécies de mamíferos.
“As coleções biológicas do Brasil possuem 108 desses 133 holótipos. Ou seja, 19% dos holótipos descobertos aqui acabaram sendo exportados para nações estrangeiras”, explica.
Para o pesquisador, essa discrepância ocorre por múltiplos fatores. “Os países do Norte Global concentram grandes museus, financiamento, infraestrutura científica e redes internacionais de pesquisa construídas ao longo de séculos. Além disso, identificamos que a história colonial é um dos principais fatores associados à concentração desses holótipos em instituições estrangeiras”.
As consequências dessa desigualdade é uma dificuldade maior de formação dos cientistas dos países em desenvolvimento, que têm mais dificuldade para estudar sua própria biodiversidade. Além do aumento de custos da pesquisa, pois os pesquisadores locais frequentemente precisam viajar ao exterior para revisar espécies, comparar materiais ou confirmar identificações.
“Não se trata apenas da localização física de um exemplar. Quem controla os holótipos também concentra parte importante da autoridade científica sobre aquelas espécies e sobre futuras pesquisas envolvendo essa biodiversidade”, defende Mário Moura.
Para minimizar os efeitos dessa concentração, o estudo propõe ações que ajudam a democratizar o acesso à biodiversidade, fortalecendo museus e pesquisadores de países megadiversos, como repatriação de espécimes, digitalização de holótipos e exigência de planos de depósito de espécimes em revistas científicas.
Este texto foi originalmente publicado pela UFPB, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.
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