Pesquisa elucida principais dificuldades desse consumidor ao buscar produtos no mercado Freepik
Por Arthur Gabriel – Jornal UFG | Os veganos escolhem não consumir produtos de origem animal e encontram dificuldades na busca de alimentos e outros produtos no mercado. Pensando nisso, a egressa da Faculdade de Administração Ciências Contábeis e Ciências Econômicas (Face) da Universidade Federal de Goiás, Celyce de Sousa Gonçalves, orientada pelo professor Ricardo Limongi buscou compreender a figura do “vegano sustentável”, uma terminologia proposta para compreender a jornada destes consumidores com valores e hábitos diferentes dos outros consumidores.
Entre os achados mais relevantes da pesquisa de Celyce estão seis barreiras enfrentadas pelo vegano sustentável: pouca variedade de produtos, escassez em mercados fora dos grandes centros, dificuldade de acesso a informações confiáveis nas embalagens, falta de profissionais de saúde com conhecimento sobre nutrição vegana, dificuldade no convívio social e o elevado preço de produtos veganos processados. O professor Limongi disse que as contribuições da tese têm impacto para empresas que buscam compreender este mercado que tem crescido e desafiado estratégias adotadas até então. Afinal, revelam como as escolhas de consumo individuais se conectam a impactos coletivos.
Limongi afirma que a pesquisa inova ao propor que a jornada desse consumidor não seja linear, mas transformativa e contínua, moldada por objetivos pessoais e valores. “A tese da Celyce destaca que a jornada do consumidor sustentável tem três etapas que se repetem: o consumo com objetivo, que resiste ao mercado dominante; o consumo consciente, que procura evitar empresas exploratórias; e o consumo pós-objetivo, que compreende um conjunto de práticas e gestão de resíduos”, afirma o professor. Dessa forma, com a compreensão do desenho da jornada, as empresas podem desenvolver estratégias de retenção que impulsionam, por exemplo, a compra e retenção destes consumidores.
A pesquisa mostrou ainda que a identidade do indivíduo vegano passa por um processo de construção pessoal que se consolida gradualmente. Assim, marca a virada para uma identidade vegana consolidada no âmbito do consumo como a leitura dos rótulos, pesquisa da cadeia produtiva e avaliação de ingredientes de origem animal em nomes técnicos. “A identidade vegana se materializa em gestos cotidianos antes de se tornar uma declaração”, ressalta Limongi.
Limongi confirmou que os participantes da pesquisa descreveram a jornada do veganismo como “difícil”, “árdua” e “cansativa” em vários momentos: “O esforço de checar rótulos, mandar e-mail para empresa, pesquisar em grupos, adaptar a alimentação em situações sociais custam tempo e energia”, diz Limongi. Há também, segundo os entrevistados da tese, um custo emocional de conviver com o julgamento social, que se reflete no cenário da saúde, em que muitos profissionais atribuem problemas de saúde ao veganismo, e ainda, a marginalização dos veganos em grupos sociais.
Porém, mesmo em meio aos desafios identificados, a tese identificou um sentimento de bem-estar compartilhado entre os consumidores veganos: “Existe uma satisfação profunda, não apenas de prazer, mas de coerência ética, em conseguir consumir de acordo com seus valores”, afirma o professor. A pesquisa compreende que o bem-estar que o vegano busca não é individual, mas coletivo, ligado ao senso de propósito, e ao ideal de contribuição para algo maior: “É psicologicamente mais robusto do que o estresse momentâneo das barreiras. O bem-estar vence, mas ninguém deve subestimar o custo da jornada”, relata Limongi.
A pesquisa sugere ainda que marcas que apostam em transparência ativa, selos confiáveis e QR codes que levam a informações completas sobre origem e processo produtivo, e aplicativos de consulta, apresentam uma vantagem competitiva com esse público, que demonstram disposição para pagar mais e ser leal a marcas que respeitem seus valores: “Não é altruísmo corporativo: é um negócio inteligente diante de um mercado de sete milhões de veganos no Brasil e em crescimento acelerado”, afirma Limongi.
O professor confirma que uma das entrevistadas da pesquisa mencionou que queria saber se um amaciante de roupas era vegano e só descobriu, “nas entrelinhas do rótulo“, que havia gordura de porco na composição: “Isso é falha técnica de regulamentação, não de esforço do consumidor. E também uma falha de comunicação das marcas. As empresas têm interesse em manter a opacidade sobre a cadeia produtiva”, explica o professor.
O veganismo configura-se como uma filosofia de vida. Ele envolve valores e rejeita produtos de origem animal (roupas, cosméticos, higiene) por razões éticas ligadas ao bem-estar animal, ao meio ambiente e à justiça social.
Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal UFG, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.
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