Foto de Jason Briscoe na Unsplash
Uma revisão publicada na revista científica Recent Progress in Nutrition sugere que apelar para a atratividade física pode ser uma estratégia mais eficaz do que o discurso tradicional sobre prevenção de doenças para incentivar as pessoas a adotarem uma dieta mais baseada em vegetais. O trabalho foi liderado por David Goldman, nutricionista da Universidade de Helsinque, na Finlândia, em coautoria com Matthew Nagra, pesquisador em nutrição da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá.
Vale registrar que Goldman também atua em pesquisa e desenvolvimento na empresa de nutrição Metabite, e que ambos os autores já prestaram consultoria para o Soy Nutrition Institute Global — um conflito de interesse declarado no próprio artigo, que vale ter em mente ao considerar as conclusões do estudo.
Apesar do grande volume de evidências sobre os benefícios de dietas ricas em vegetais para a saúde e a longevidade, os índices de obesidade nos Estados Unidos seguem altos — um sinal, segundo os pesquisadores, de que a mensagem de saúde tradicional não está engajando o suficiente.
“A comunicação tradicional de saúde pública enfatiza prevenção de doenças e longevidade, mas as motivações pessoais para mudança alimentar costumam girar em torno da aparência e de resultados sociais”, escrevem os autores.
Para o estudo, Goldman e Nagra revisaram mais de 30 pesquisas publicadas sobre a relação entre dieta e atratividade física percebida, identificando três caminhos principais pelos quais a alimentação pode influenciar essa percepção: a aparência facial, o odor corporal e a composição corporal.
No caso da aparência facial, o consumo de carotenoides — pigmentos amarelos, laranjas e vermelhos presentes em frutas e vegetais — está associado a mudanças na coloração da pele que fazem as pessoas serem percebidas como mais saudáveis e atraentes em diversos estudos. Os pesquisadores fazem uma ressalva importante: essa percepção não significa necessariamente uma melhora real na saúde interna.
“A coloração por carotenoides funciona principalmente como um sinal perceptivo de status de saúde, não como um índice direto de saúde fisiológica comprovada”, escrevem.
Já em relação ao olfato, alguns estudos associam dietas com mais vegetais a um suor de cheiro mais agradável em homens, se comparado ao de dietas com mais carne — embora os resultados não sejam totalmente conclusivos. O alho, famoso por deixar um hálito forte, teve um efeito surpreendente: em um experimento, o odor corporal de quem consumia alho foi avaliado como mais atraente e agradável do que o de quem não consumia.
Sobre composição corporal, os pesquisadores citam experimentos que associam menores níveis de gordura corporal a avaliações de maior atratividade, tanto em homens quanto em mulheres. Como dietas mais baseadas em vegetais tendem a se associar a um IMC menor e maior redução de gordura corporal em comparação a dietas com mais produtos de origem animal, os autores sugerem — com cautela — que esse tipo de alimentação poderia, ao mesmo tempo, melhorar a saúde e a percepção de atratividade das pessoas.
Eles reforçam, porém, que não há evidência direta de que dietas à base de plantas alterem a composição corporal de formas que as pessoas considerem atraentes.
Os autores também alertam para os riscos éticos em usar a atratividade como incentivo.
“Mensagens de saúde baseadas em aparência já demonstraram risco de reforçar padrões prejudiciais de imagem corporal, aumentar a auto-objetificação e intensificar a internalização do ideal de magreza”, escrevem.
Segundo eles, mensagens centradas em peso podem aumentar a vergonha corporal — principalmente em pessoas com maior risco de desenvolver transtornos alimentares — sem necessariamente motivar mudanças de comportamento.
Por isso, os pesquisadores recomendam que campanhas de saúde pública que apelem para a atratividade se concentrem em efeitos visíveis mais neutros, como a mudança na coloração da pele pelo maior consumo de frutas e vegetais — e não no peso ou na composição corporal.
Um experimento citado no artigo mostra que esse tipo de abordagem pode funcionar: pessoas que viram simulações personalizadas de como a mudança na dieta afetaria a cor da própria pele passaram a comer mais frutas e vegetais ao longo de dez semanas, na comparação com quem não recebeu essas simulações.
“Enquadrar a atratividade como um incentivo de saúde desloca o foco de um risco de doença distante e abstrato para indicadores imediatos e tangíveis de vitalidade”, concluem os pesquisadores. “Quando aplicadas com cuidado, essas abordagens podem aumentar o engajamento com padrões alimentares baseados em vegetais e alimentos íntegros, sustentando também os objetivos de saúde pública a longo prazo.”
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