Pinguins-imperador precisam de áreas de gelo para reprodução. Crédito: Canva
Por Roberto Kaz – Observatório do Clima | A notícia correu o mundo, como tende a acontecer quando o protagonista pertence ao seleto grupo da “fofofauna”: o pinguim-imperador entrou para a lista de espécies ameaçadas.
Uma espécie entrar em risco de extinção não chega a ser novidade num mundo tão ocupado pelo homo sapiens. A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), que inventaria o assunto, contabiliza mais de 48 mil espécies nesse status. O que há de particular, no caso do pinguim-imperador, é que o desaparecimento de cerca de 20 mil pinguins adultos entre 2009 e 2018 – cerca de 10% da população – não foi provocado pela expansão urbana, ou pela caça. O pinguim-imperador está morrendo por causa das mudanças climáticas.
Os dados constam de um estudo de 27 páginas feito pela Birdlife International, publicado na semana passada pela IUCN. Segundo o documento, os pinguins estão desaparecendo devido à falta de áreas seguras para a reprodução, consequência da perda de gelo marinho — que vem reduzindo em níveis recordes desde 2016 em razão do aquecimento do planeta (quem viu o filme “A marcha dos pinguins” deve se lembrar de que o pinguim-imperador precisa de uma placa de gelo estável para criar os filhotes enquanto eles não estão prontos para sobreviver na água). Sem gelo, os filhotes morrem. Sem filhotes, morre a espécie. O estudo indica que a população pode cair pela metade até 2073. A depender do cenário climático, a queda pode chegar a 98% da população em 2100.
“Após uma análise cuidadosa de diferentes ameaças possíveis, concluímos que as alterações climáticas induzidas pelo homem representam a ameaça mais significativa para os pinguins-imperadores”, disse o pesquisador Philip Trathan, membro do Grupo de Especialistas em Pinguins da IUCN. “O pinguim-imperador é uma espécie sentinela que nos fala sobre como estamos gerenciando as emissões de gases de efeito estufa que levam às mudanças climáticas.”
A IUCN deixou claro que não é apenas o pinguim-imperador que corre risco de sumir em função do clima. O lobo-marinho-antártico – uma espécie de foca, muito caçada no passado – foi classificado como “em perigo”, já que o número de indivíduos na natureza caiu mais de 50% desde 1999, indo de cerca de 2,2 milhões para 940 mil indivíduos em 2025. Nesse caso, o clima não afetou a reprodução, mas a alimentação dos animais: o aumento da temperatura oceânica empurrou o krill – pequeno crustáceo que é a principal fonte de alimento do lobo-marinho-antártico – para águas mais profundas, em busca do frio. Em suma: a nossa emissão de gases de efeito estufa, que já fez a temperatura mundial aumentar 1,5ºC em relação ao período pré-industrial, está matando bichos de fome na Antártida.
Via de regra, espécies são extintas pela caça, pela incapacidade de adaptação ou por um desequilíbrio no habitat – que pode vir do avanço urbano, rural, ou de causas naturais. A novidade, por assim dizer, é que a humanidade está começando a extinguir espécies pelo uso de combustíveis fósseis – responsáveis por 70% das emissões humanas de gases de efeito estufa.
O elefante asiático, que já foi barbarizado por humanos pela caça e pelo fetiche de ser exposto em zoológicos e circos, agora sofre também com a alta da temperatura e com a diminuição das chuvas no sudeste da Ásia. Na Índia, elefantes também morreram devido às altas repentinas do rio Brahmaputra, provocadas pelo aumento dos eventos extremos.
Há ainda espécies de peixe, baleia, sapo, tartaruga, além, claro, do urso polar, que têm sido afetadas pelos efeitos das mudanças do clima.
Na Amazônia equatoriana, o possível declínio da população de aves tem deixado as partes intocadas da floresta mais silenciosas. Já na Amazônia brasileira, o calor e a diminuição nas chuvas levou o rio Tefé a uma seca histórica em 2024 – e isso, por sua vez, resultou na morte de ao menos 200 botos no lago Tefé. “É uma espécie que já estava ameaçada pela redução do habitat, e que teve a sua situação ainda mais agravada por causa do aumento na temperatura dos rios”, explicou Anna Carolina Lins, analista de Conservação do WWF-Brasil.
Um estudo publicado no ano passado pela Universidade de Oxford, da Inglaterra, deu conta de que 8 mil espécies de vertebrados terrestres podem ser extintos, devido ao aumento do calor, até o final do século. “E isso é só um dado de animais terrestres”, lembra Rodrigo Gerhardt, gerente de vida silvestre da Proteção Animal Mundial. “Se você vai para os animais marinhos, com a perda dos corais, esse número fica muito maior.”
Gerhardt diz que as mudanças do clima têm funcionado como um “acelerador” da perda de biodiversidade. “A sexta extinção em massa já vinha acontecendo pela caça e pela destruição de habitat. Agora, essa perda de habitat está sendo acentuada pelo aquecimento do planeta.”
Entre os eventos extremos que vitimaram animais, ele lembra das chuvas no Rio Grande do Sul, em 2024 – que mataram milhares de portos, bois e cavalos -, e os incêndios no Pantanal em 2020, no qual milhões de animais morreram. “No conceito de justiça climática, em que as populações vulneráveis são as mais afetadas, os animais estão sujeitos aos mesmos efeitos dos humanos”, complementa.
Animais continuam sendo caçados e afetados pela expansão das malhas urbanas e rurais. Agora, no entanto, o perigo também pode vir de longe: as emissões de países tão distantes, como Estados Unidos, China e Índia, podem afetar espécies uma espécie na Antártida. “As aves migratórias são um exemplo bem claro disso”, explica Anna Carolina Lins, da WWF-Brasil. “Às vezes os locais em que paravam não existem mais ou não estão em boas condições por conta do clima. Os ambientes estão interligados. Por isso é tão importante os países trabalharem juntos, definirem metas e cumprirem metas conjuntamente. É um só planeta, no fim das contas.”
Este texto foi originalmente publicado pelo Observatório do Clima, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.
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