Foto de Francesco Ungaro no Pexels
Por Luciane Pedotti, Thais Fujita, José R. Cardoso & Maurício Salles – Jornal da USP | Em janeiro de 2025, uma sequência de tempestades intensas atingiu a região Norte do País e provocou a queda de torres de transmissão ao longo do Linhão Xingu-Rio de Janeiro, uma das principais e mais modernas infraestruturas de escoamento de energia do Brasil. O episódio destacou-se entre os mais severos a afetar o sistema de transmissão nos últimos anos, em razão da combinação entre danos estruturais extensos e um processo de recuperação prolongado, condicionado por fatores meteorológicos persistentes e por limitações de acesso às áreas afetadas.
Esse evento ilustra características intrínsecas das linhas de transmissão, que operam de forma linear ao longo de extensos corredores. Nesse tipo de infraestrutura, a ocorrência de uma falha pode interromper completamente o escoamento de energia, uma vez que os ativos atravessam longas distâncias e regiões frequentemente remotas, onde o acesso é restrito e a recomposição demanda tempo, logística complexa e condições ambientais favoráveis. Como consequência, o episódio exigiu do Operador Nacional do Sistema (ONS) a realização de manobras operativas contínuas para preservar a estabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN).
Antes de avançar, é importante contextualizar o papel específico das linhas de transmissão no sistema elétrico. Diferentemente das redes de distribuição, que realizam a entrega final de energia aos consumidores, a transmissão opera em níveis elevados de tensão e ao longo de grandes distâncias, conectando usinas aos principais centros de carga do país. Essas linhas utilizam torres de grande porte e cabos robustos, projetados para reduzir perdas elétricas e garantir o escoamento de grandes blocos de energia. Já as redes de distribuição, normalmente apoiadas em postes e presentes nos espaços urbano e rural, recebem essa energia nas subestações, rebaixam a tensão e realizam a entrega final a residências, comércios e indústrias. É justamente essa função estruturante e de integração em larga escala que faz com que falhas na transmissão assumam caráter sistêmico, com repercussões que se propagam rapidamente por todo o sistema elétrico.
Episódios como o de janeiro de 2025 evidenciam que os impactos de eventos climáticos extremos (ECE) sobre a transmissão de energia extrapolam o dano físico localizado. A indisponibilidade de um único corredor de grande porte pode gerar efeitos sistêmicos imediatos, afetando o intercâmbio de energia entre regiões, elevando custos operacionais e reduzindo a margem de segurança do sistema elétrico. Em um cenário de mudanças climáticas, o desafio passa a incluir não apenas a resistência estrutural das instalações, mas também a capacidade de resposta a situações prolongadas de instabilidade ambiental.
As mudanças climáticas vêm afetando o planeta de forma crescente e abrangente, com reflexos diretos sobre a frequência e intensidade de eventos climáticos extremos. Relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) indicam que tempestades severas, ondas de calor prolongadas, secas intensas, incêndios florestais, inundações e deslizamentos de terra têm se tornado mais recorrentes nas últimas décadas, ampliando riscos para a sociedade, meio ambiente e as infraestruturas críticas.
No Brasil, esses impactos assumem características particulares, dado que o sistema elétrico nacional opera de forma majoritariamente integrada por meio do SIN, que conecta mais de 99% do território e se apoia em uma extensa malha de transmissão composta por mais de 180 mil quilômetros de linhas, que atravessam o país de norte a sul. Essa capilaridade, essencial para a garantia do suprimento de energia, também expõe o sistema a uma ampla diversidade de condições climáticas, ambientais e geográficas.
A interrupção de uma única linha de transmissão pode provocar impactos relevantes no SIN, exigindo do ONS manobras operativas rápidas e complexas para preservar a segurança operativa. Nesse contexto, as concessionárias de transmissão têm observado um crescimento das falhas associadas a eventos climáticos, que já figuram entre as principais causas de desligamentos não programados, indicando que fenômenos como descargas atmosféricas, queimadas, rajadas de vento e temporais respondem majoritariamente pelas causas dessas falhas. Dados do ONS indicam uma tendência de aumento, na última década, do número interrupções associadas a condições atmosféricas adversas e queimadas.
Além de provocar quedas de torres, rompimento de cabos e deslizamentos de terra com comprometimento de fundações, esses eventos dificultam significativamente o acesso das equipes de manutenção. Muitas linhas de transmissão atravessam regiões de relevo acidentado, áreas serranas ou localidades remotas, onde as condições de acesso já são naturalmente limitadas e tendem a se agravar em situações de chuva persistente ou instabilidade do solo, prolongando o tempo necessário para a recomposição do sistema.
A análise dos dados evidencia que, embora determinados eventos apresentem menor frequência relativa, seus impactos operacionais podem ser desproporcionais. As rajadas de vento, por exemplo, representam cerca de 4% dos eventos climáticos associados a desligamentos, mas respondem por aproximadamente 90% do tempo total de recomposição quando comparadas a outras causas, configurando-se como um dos principais desafios para o restabelecimento do fornecimento de energia.
O aumento da frequência e da severidade dos ECEs evidencia a vulnerabilidade do SIN e tem estimulado um conjunto de iniciativas institucionais voltadas ao fortalecimento da resiliência do setor elétrico brasileiro, atuando de forma complementar nas esferas normativa, operativa e informacional.
No âmbito da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), observa-se a discussão sobre a atualização das Normas Brasileiras (NBRs) aplicáveis ao projeto de estruturas de transmissão, com o objetivo de incorporar critérios compatíveis com ventos mais intensos e condições ambientais mais severas. Soma-se a isso a avaliação da necessidade de revisão das resoluções normativas, de modo a alinhar as exigências regulatórias às novas condições climáticas observadas, bem como a promoção de projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PDI), em parceria com universidades e centros de pesquisa, voltados à análise dos impactos dos ECEs sobre o SIN.
No campo operacional, destacam-se os Planos de Atendimento a Emergências (PAE) das concessionárias de transmissão, que vêm sendo continuamente aprimorados por meio da ampliação de estoques de peças de reposição críticas e da distribuição estratégica desses materiais ao longo do território nacional, com o objetivo de reduzir o tempo de recomposição do sistema em emergências.
No âmbito do monitoramento e da previsão meteorológica, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) opera uma rede nacional com mais de 700 estações meteorológicas, reconhecendo-se, contudo, a necessidade de expansão e adensamento dessa rede, especialmente em regiões onde a densidade de estações permanece abaixo dos padrões internacionais recomendados. De forma complementar, sistemas estaduais de monitoramento ambiental, como o Simepar, têm ampliado seus investimentos em redes meteorológicas e hidrológicas, fortalecendo os mecanismos de alerta e resposta após eventos severos. No Paraná, essas ações foram intensificadas após as tempestades registradas em novembro de 2025, que causaram danos expressivos em municípios como Rio Bonito do Iguaçu.
O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) também tem ampliado os investimentos em tecnologias de previsão do tempo e modelagem climática, incluindo a aquisição, em outubro de 2025, de um supercomputador que expandiu significativamente a capacidade nacional de processamento e simulação, atendendo à crescente demanda por informações meteorológicas e climáticas mais precisas diante da intensificação dos eventos extremos.
No âmbito das concessionárias de transmissão, destacam-se iniciativas como a instalação de sistemas de sensoriamento ao longo das linhas para o monitoramento estrutural em tempo real, com o uso de acelerômetros e giroscópios capazes de detectar anomalias, como aumento de vibração e variações de inclinação das torres. Adicionalmente, observa-se a implantação de estações meteorológicas de pequeno porte ao longo dos corredores de transmissão, destinadas ao monitoramento de variáveis críticas, como velocidade e direção do vento, precipitação, temperatura, umidade e pressão atmosférica, contribuindo para a melhoria da capacidade de resposta operacional das equipes de manutenção.
Diante desse conjunto de iniciativas e desafios, permanece em aberto a questão central deste debate: o sistema elétrico brasileiro está adequadamente preparado para enfrentar eventos climáticos cada vez mais intensos, extensos e persistentes? Evidências recentes indicam que, embora existam mecanismos operativos capazes de responder a falhas pontuais, ainda persistem limitações relevantes quando a instabilidade ambiental se prolonga no tempo e no espaço.
Os caminhos para incorporar os efeitos das mudanças climáticas nas LTs envolvem desafios como:
• Critérios de dimensionamento: novos critérios de projeto de infraestrutura, inclusive normativos;
• Confiabilidade x Incertezas: adoção de critérios de confiabilidade mais conservadores, como aumento de redundância do sistema;
• Resiliência da Transmissão x Investimentos x Impactos Ambientais: redes mais robustas para suportar ECEs envolvem investimento em equipamentos mais modernos e implementação de tecnologias mais avançadas;
• Recomposição da Infraestrutura: envolve complexidade logística para produção e transporte e mão de obra especializada para cada atividade.
Nesse sentido, a criação de um banco de dados nacional que integre informações meteorológicas, estruturais e operativas das linhas de transmissão desponta como uma ferramenta estratégica para o aumento da resiliência do sistema elétrico. A disponibilização sistemática desses dados para projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação, sob coordenação da Agência Nacional de Energia Elétrica e em parceria com universidades e centros de pesquisa, pode aprofundar o entendimento sobre os impactos dos eventos climáticos extremos e subsidiar o desenvolvimento de medidas mais eficazes para mitigar seus efeitos sobre o Sistema Interligado Nacional, fechando o ciclo entre diagnóstico, aprendizado institucional e aprimoramento contínuo da infraestrutura.
Pesquisas aplicadas conduzidas pelo InnovaPower (USP) visam aumentar a resiliência do SIN frente a eventos climáticos extremos, com oportunidades de cooperação com empresas do setor elétrico.
Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.
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