Poluição da Água

Nos rios da Amazônia, peixes já respiram e ingerem plástico

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Por Tiago da Mota e Silva – Mongabay | Nas águas amazônicas, o pirarucu (Arapaima gigas) é um peixe que consegue viver entre dois mundos. Na escassez de oxigênio, como é típico de lagos de várzea, o gigante sobe à superfície para respirar o ar. Ao longo de uma linhagem com pelo menos 100 milhões de anos, o pirarucu desenvolveu uma bexiga natatória modificada, capaz de funcionar como um pulmão primitivo. Essa adaptação rara permitiu a ele a vantagem de poder ocupar ambientes que são severos para outros peixes. Hoje, porém, a mesma adaptação que permite sua sobrevivência o torna vulnerável a uma outra ameaça: a poluição por microplásticos.

“O ambiente amazônico já é altamente desafiador”, afirma Adalberto Val, biólogo e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Adaptações da Biota Aquática da Amazônia (INCT-Adapta). “Aqui temos temperaturas altas, baixos níveis de oxigênio na água… Os organismos já respondem a esses desafios da forma que eles aprenderam durante o processo evolutivo. Então, começamos a acrescentar desafios novos, como é o plástico.”

Quando respirar vira um risco

Os pirarucus são incapazes de sobreviver mais de dez minutos sem subir à superfície para respirar. Para isso, usam o órgão de respiração aérea ligado à sua bexiga natatória modificada. Essa necessidade os coloca em contato direto com microplásticos que flutuam na água. Com base nos conhecimentos já estabelecidos sobre a espécie,

Se microplásticos invadirem o órgão de respiração aérea do pirarucu, um dos primeiros riscos é o de dano mecânico. As partículas podem obstruir fisicamente a glote do animal, dificultando a passagem do ar. Além disso, a glote possui células que funcionam como detectores dos níveis de oxigênio e gás carbônico. Com a presença de microplásticos, o funcionamento dessas células pode ser afetado, alterando o próprio controle da respiração.

Val explica que os microplásticos também podem “sequestrar” elementos fundamentais para a manutenção da fisiologia do animal. Sódio, potássio e cálcio, por exemplo, podem se prender às partículas plásticas, ficando indisponíveis para o funcionamento normal do organismo.

“Por outro lado, esse microplástico é um elemento estranho dentro do corpo. O organismo tenta atacá-lo, tentando destruí-lo, o que causa processos inflamatórios”, acrescenta Val. “Isso se torna um ciclo vicioso, em que a energia do animal é direcionada para lidar com esses microplásticos, desencadeando vários outros processos que adoecem o animal.”

No caso do pirarucu, a absorção de microplásticos para outros tecidos internos do peixe é mais provável justamente pela entrada de partículas via respiração aérea. Uma vez nos tecidos, a contaminação deixaria de ser apenas uma ameaça ao animal: ela também levanta perguntas sobre a contaminação por microplásticos pela população amazônida, que depende dos peixes como fonte de alimento.

Pesca de pirarucu em Carauari, Amazonas. Foto: AP Photo/Jorge Saenz.

Pulso das águas pode mudar as dinâmicas de contaminação

Embora os trabalhos científicos sejam recentes, a presença de contaminação por microplásticos nas águas da Amazônia já está comprovada. Estudos encontraram essas partículas desde os grandes rios aos igarapés, passando por lagos, até chegar aos manguezais da Foz do Amazonas. Nos rios de maior volume, como Amazonas e Negro, a imensa quantidade de água ajuda a diluir parte da contaminação, mas não impede que os plásticos sejam transportados, acumulados no fundo ou depositados em áreas de menor circulação.

O problema se torna mais crítico dentro das cidades, onde igarapés e lagos urbanizados recebem esgoto sem tratamento e lixo descartado de forma irregular. Em Manaus, pesquisas já registraram concentrações elevadas de microplásticos em igarapés urbanos, de até 74.550 microplásticos por metro cúbico (MPs/m³). Outro exemplo é o Lago Puraquequara, onde foram encontradas essas partículas no intestino de metade dos jaraquis analisados em um estudo. Os jaraquis são os peixes mais consumidos no estado do Amazonas.

Adalberto Val destaca que, no mundo, os estudos sobre microplásticos são abundantes, mas se concentram, sobretudo, na poluição dos oceanos e das áreas litorâneas, com maior atenção aos animais marinhos. Já na Amazônia o conhecimento avança na direção de entender como esse tipo de poluição interage com as características únicas da maior bacia hidrográfica do planeta.

“A Amazônia já avançou bastante em medir a presença dos microplásticos, mas a gente precisa avançar muito em relação à dinâmica deles nos ambientes e na movimentação por diferentes tipos de paisagem”, explica Val.

Uma dessas particularidades é o pulso de inundação, o regime natural de cheias e secas dos rios amazônicos. Durante as cheias, a água conecta os ambientes, como áreas de várzea e florestas inundadas, ampliando a capacidade de dispersão dos poluentes. Nas secas, com menor volume de água disponível, partículas podem se concentrar em poças, canais, sedimentos e ambientes isolados, aumentando a exposição dos organismos aquáticos.

Soma-se a isso a diversidade dos próprios tipos de água da Amazônia. Águas pretas, mais ácidas, como as do Rio Negro, e águas brancas, barrentas e ricas em sedimentos, como as do Rio Amazonas, podem interagir de maneiras distintas com os microplásticos: em certos ambientes, favorecendo sua fragmentação; em outros, facilitando sua deposição no fundo dos rios e lagos.

A vegetação também faz diferença. Plantas aquáticas, conhecidas como macrófitas, podem funcionar como barreiras físicas, retendo partículas plásticas e reduzindo seu transporte pela correnteza. Ao mesmo tempo, essa retenção pode tornar os microplásticos mais disponíveis para organismos que vivem, se alimentam ou circulam nesses bancos de vegetação, de peixes a peixes-bois.

Igarapé do Combu, no. Pará: perigo invisível dos microplásticos. Foto: AP Photo/Eraldo Peres.

Nos igarapés, risco maior em peixes pequenos

O pirarucu, um dos maiores peixes de água doce do mundo, habita rios largos e grandes lagos. Mas a Amazônia também é habitada por peixes pequenos, espalhados por uma rede de corpos d’água estreitos que cortam toda a região, os igarapés. Em monitoramento realizado pelo pesquisador Andreu Rico, as concentrações de microplásticos na calha de grandes rios, como Amazonas, Negro, Tapajós e Tocantins, ainda foram consideradas baixas para representar risco de intoxicação. Nos igarapés de Manaus e Belém, porém, ao menos 20% dos pontos monitorados apresentaram concentrações acima dos limites seguros para os animais.

Ecóloga e professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Danielle Regine Ribeiro-Brasil decidiu olhar justamente para esses ecossistemas ainda pouco investigados pela literatura científica. “Em um grande rio, os microplásticos se dispersam no grande volume de água e podem representar menor risco. Mas, em igarapés, sobretudo os que recebem esgoto e lixo das cidades, uma concentração menor pode ter grande impacto”, explica a professora.

Danielle realizou coletas de peixes nas bacias dos rios Guamá e Acará-Capim, no Pará, em territórios impactados pelo desmatamento, pela pecuária e pela expansão urbana. Microplásticos foram detectados nas brânquias e no trato digestivo de todos os peixes analisados, exceto um. Ao todo, foram registradas 383 partículas plásticas nas amostras.

“Os dados surpreendem, porque antes se imaginava que apenas peixes que se alimentam de sedimentos ou de plantas seriam os mais contaminados. Mas a detecção é geral, incluindo predadores”, destaca a pesquisadora. Para ela, esse é um indício de que a poluição já pode estar profundamente integrada às cadeias alimentares locais.

Em média, foram encontradas 5,6 partículas por indivíduo. “Parece pouco”, pondera Danielle. “Mas estamos falando de animais pequenos, que vivem em canais estreitos. Portanto, mesmo uma quantidade menor pode gerar danos físicos ao animal.” A ingestão dessas partículas minúsculas pode causar bloqueios no trato gastrointestinal e lesões internas. Elas também aderem facilmente às brânquias, o que pode interferir na respiração e no sistema imunológico dos peixes.

Mais uma vez, a diversidade de espécies faz com que as respostas variem. Enquanto o lambari (Hemigrammus unilineatus), que chega a cerca de 5 centímetros, apresentou menor contaminação, espécies como o jacundá (Crenicichla regani), de aproximadamente 7 centímetros, mostraram maior acúmulo nas brânquias.

Lixo sobre as águas do Igarapé do Franco, em Manaus, durante cheia. Foto: AP Photo/Edmar Barros.

No fundo do rio, o tamoatá encontra o plástico

Engenheiro de pesca e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Renan Amanajás resume a dimensão do conhecimento que ainda precisa ser construído: “Na Amazônia, há um universo de mais de 3 mil espécies de peixes. Para boa parte delas, os impactos dos microplásticos são similares, mas é preciso investigar se há padrões novos a depender das peculiaridades de uma espécie para outra.”

O caso do pirarucu é emblemático nesse sentido. Embora processos como inflamação e estresse fisiológico se assemelhem ao que ocorre em outros peixes, o comportamento de subir à superfície para respirar ar cria riscos particulares, difíceis de comparar com aqueles já descritos para espécies de outras regiões do mundo.

Amanajás estuda os impactos dos microplásticos em outro peixe amazônico de características singulares: o tamoatá (Hoplosternum littorale). Abundante no fundo de lagos e áreas de várzea, ele se alimenta de detritos depositados nos sedimentos, hábito que o torna vulnerável à ingestão de partículas acumuladas no leito. Para se ter uma noção da exposição possível, a concentração de microplásticos nos sedimentos do rio Negro foi estimada em cerca de 13 milhões de partículas por metro cúbico.

“Os dados que conseguimos até o momento demonstram que uma concentração de 0,0005% de microplásticos na ração já é capaz de reduzir o bem-estar desse animal, aumentando os níveis de estresse e provocando perda de peso”, explica Renan. Segundo ele, a resposta inflamatória do organismo compromete outras funções essenciais do animal.

Do peixe ao humano, risco de contaminação é plausível

A partir dos organismos dos peixes, a contaminação por microplásticos também alcança a histórica relação entre populações humanas e a fauna aquática amazônica. O problema se apresenta em ao menos três grandes frentes. A primeira é a conservação. Associada a outras ameaças, como agrotóxicos, mudanças climáticas, desmatamento e represamento de rios, essa poluição acrescenta uma nova pressão sobre a biodiversidade aquática da Amazônia. Ainda há lacunas sobre a extensão desses efeitos, mas os estudos já indicam que os microplásticos podem alterar processos fundamentais da biologia dos animais.

A segunda frente é alimentar. O consumo de peixe na Amazônia é basilar; ou, como define Renan, “é a maior expressão da cultura das pessoas que vivem aqui”. No Amazonas, por exemplo, famílias chegam a comer cerca de 14 quilos por pessoa ao ano, contra 2,8 quilos na média nacional. Em comunidades ribeirinhas, onde a pesca de subsistência tem peso maior, esse consumo pode ser muito mais alto. Nesse contexto, a contaminação por microplásticos preocupa também pelos efeitos que podem comprometer o crescimento, peso e qualidade dos peixes no futuro.

Bagre amazônico à venda no mercado Ver-o-Peso, em Belém (PA). Foto: AP Photo/Eraldo Peres.

“Já é seguro afirmar que os microplásticos alteram a capacidade dos peixes de ganhar peso, porque parte da energia que seria usada para crescer passa a ser direcionada para combater esse processo inflamatório”, acentua Renan. “Mas ainda não temos dados suficientes que mostrem essa dinâmica de contaminação nos peixes da Amazônia, seja no cultivo em fazendas, seja na pesca.”

Embora ainda faltem estudos específicos sobre os efeitos dos microplásticos na reprodução de peixes amazônicos, a literatura internacional já indica que essas partículas podem afetar órgãos reprodutivos e comprometer o desenvolvimento de embriões e descendentes. Na Amazônia, onde estudos já comprovam a presença de microplásticos no trato digestivo de dezenas de espécies de peixes, a pergunta passa a ser como essa exposição pode impactar as populações locais e, em consequência, a própria pesca.

A terceira frente é a da saúde. Afinal, uma das vias de exposição humana aos microplásticos é a dieta. com peixes do Mar do Sul da China e do Estreito de Malaca encontrou microplásticos em tecidos comestíveis de espécies comerciais, com média de 8,95 partículas por indivíduo, e estimou a ingestão diária de até 1,6 partícula por pessoa por meio do consumo desses peixes.

Embora ainda não haja estudos semelhantes para peixes amazônicos, pesquisadores consideram plausível que essa rota de exposição também exista na região. “Sabemos que a saúde ambiental e a saúde humana estão conectadas. A qualidade do nosso ambiente interfere na qualidade da nossa vida”, defende Adalberto Val.

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Este texto foi originalmente publicado pela Mongabay, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.

Bruna Chicano

Cientista ambiental, vegana, mãe da Amora e da Nina. Adora caminhar sem pressa e subir montanhas.

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