A dieta é o principal modulador. Padrões ricos em fibras, como a dieta mediterrânea aumentam a diversidade microbiana – Foto: Freepik
Por Breno Marino – Jornal da USP | A microbiota intestinal, composta de um ecossistema diverso de bactérias, vírus e fungos que habitam o trato gastrointestinal, desempenha papéis vitais no organismo humano, atuando diretamente na digestão, na produção de vitaminas, no fortalecimento da imunidade e no equilíbrio da saúde mental. Contudo, no envelhecimento, essa estrutura passa por transformações profundas que podem afetar o funcionamento de diversos órgãos.
Com o passar dos anos, o organismo enfrenta um processo de reconfiguração microbiana conhecido como disbiose, caracterizado pela redução da diversidade de microrganismos e pela queda de bactérias benéficas. Essas transformações são acompanhadas pelo aumento de cepas inflamatórias que podem prejudicar a saúde do indivíduo.
Egídio Dorea, médico e coordenador do programa USP 60+ da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP, explica que essa alteração vem acompanhada pelo enfraquecimento das defesas naturais do intestino. “A camada de muco fica mais fina e as proteínas das junções firmes diminuem, tornando o intestino mais permeável, o que chamamos de leaky gut ou intestino permeável.”
Essa perda de integridade permite que substâncias bacterianas, como o lipopolissacarídeo (LPS), ultrapassem a barreira intestinal e alcancem a corrente sanguínea. A passagem dessas substâncias ativa o sistema imunológico de forma crônica e de baixa intensidade, desencadeando o inflammaging — conceito que define a inflamação sistêmica associada ao envelhecimento. O impacto atinge estruturas distantes, como o fígado, os músculos, o cérebro e o coração, favorecendo o aparecimento ou o agravamento de patologias como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, sarcopenia, fragilidade e declínio cognitivo.
Segundo Egídio Dorea, algumas pesquisas em modelos animais demonstraram que a transferência de microbiota de organismos idosos para jovens é capaz de acelerar a inflamação e o envelhecimento biológico dos tecidos.
Apesar das alterações biológicas naturais da idade, a microbiota intestinal possui alta capacidade de modulação a partir dos hábitos diários. Entre os fatores de proteção, a alimentação figura como a principal ferramenta para manter o equilíbrio microbiano.
“A dieta é o principal modulador. Padrões ricos em fibras, como a dieta mediterrânea (frutas, vegetais, leguminosas, nozes, azeite e peixe), aumentam a diversidade microbiana, reduzindo marcadores inflamatórios”, ressalta o médico. Ele pontua que idosos submetidos à dieta mediterrânea por um ano apresentaram preservação da diversidade bacteriana e melhora em indicadores de função cognitiva e fragilidade, enquanto o consumo de alimentos ultraprocessados e pobres em fibras agrava o quadro de disbiose.
Além da dieta e da prática regular de exercícios físicos — que fortalecem a barreira intestinal e estimulam bactérias benéficas —, o uso de pré e probióticos pode atuar de forma complementar. O médico orienta priorizar fontes alimentares naturais, como iogurte natural, kefir, chucrute, alho, cebola, aveia e legumes, reservando a suplementação para casos com indicação profissional. Para Egídio Dorea, a combinação de nutrição adequada, atividade física e cuidado intestinal consolida-se como a estratégia mais promissora para assegurar um envelhecimento autônomo e saudável.
Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.
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