Imagem de Alan J. Hendry no Unsplash
As relações familiares moldam profundamente a estrutura social das hienas-malhadas. Uma pesquisa que acompanhou oito gerações desses mamíferos na Tanzânia demonstrou que as fêmeas de posição mais elevada na hierarquia acumulam vantagens capazes de se perpetuar por décadas. O resultado altera a compreensão sobre a competição entre os sexos e mostra que o sucesso reprodutivo das linhagens femininas supera o dos machos quando a análise considera filhos, netos e descendentes mais distantes.
Durante muito tempo, a biologia evolutiva apontou que, entre os mamíferos, os machos apresentam maior desigualdade reprodutiva, já que alguns geram muitos descendentes enquanto outros deixam poucos ou nenhum. Essa interpretação está ligada ao fato de os machos produzirem grande quantidade de espermatozoides e buscarem fecundar o maior número possível de fêmeas, enquanto elas investem intensamente na gestação, na amamentação e nos cuidados com a prole.
Entretanto, o acompanhamento de longo prazo das hienas-malhadas revelou um cenário bem mais complexo. Pesquisadores do Projeto Hienas de Ngorongoro analisaram 2.700 indivíduos distribuídos em oito clãs do interior da Cratera de Ngorongoro, na Tanzânia, ao longo de 29 anos. A investigação permitiu reconstruir árvores genealógicas completas e identificar como determinadas famílias expandiram sua influência ao longo das gerações.
Quando os cientistas observaram apenas o número de filhotes produzidos em um único período reprodutivo, os resultados seguiram o padrão encontrado na maioria dos mamíferos: os machos exibiam maior desigualdade no sucesso reprodutivo. Porém, esse panorama mudou completamente quando a pesquisa passou a contabilizar netos, bisnetos e gerações posteriores.
A cada nova geração incluída na análise, as diferenças entre as linhagens femininas tornavam-se mais evidentes. Fêmeas de alta posição social geravam mais descendentes, criavam uma parcela maior deles com sucesso e transmitiam aos filhos os mesmos privilégios que haviam recebido de suas mães. Dessa forma, famílias dominantes cresceram continuamente, enquanto linhagens de posição inferior permaneceram reduzidas.
Os números ilustram esse processo. Em uma geração, aproximadamente 10% dos filhotes pertencem diretamente a fêmeas alfa. Na geração seguinte, cerca de 20% dos indivíduos já descendem de uma avó alfa. Após seis gerações, praticamente todos os integrantes do clã possuem algum vínculo com essas linhagens dominantes.
O fator responsável por esse padrão está na organização social das hienas-malhadas. Os clãs seguem uma rígida hierarquia liderada por uma fêmea alfa. A posição ocupada pela mãe é herdada pelos filhotes, garantindo prioridade no acesso ao alimento, crescimento mais acelerado durante a juventude e maiores taxas de sobrevivência.
Essas vantagens acompanham principalmente as filhas. Como elas permanecem no mesmo clã durante toda a vida, conservam a posição herdada, iniciam a reprodução mais cedo, apresentam intervalos menores entre os nascimentos e vivem por mais tempo em comparação com fêmeas de categorias inferiores.
Os machos percorrem um caminho diferente. Ao atingirem a maturidade sexual, normalmente deixam o grupo de origem para ingressar em outro clã. Com essa mudança, perdem o status social recebido da mãe e deixam de acumular os benefícios que favoreceriam a expansão contínua de sua linhagem. Como consequência, sua influência reprodutiva diminui nas gerações seguintes.
Os pesquisadores destacam que essa diferença só se torna evidente quando os dados são analisados em uma escala temporal ampla. Avaliações restritas ao número imediato de filhotes ocultam o efeito cumulativo da herança social transmitida pelas mães, levando à impressão de que a competição permanece concentrada entre os machos.
O comportamento observado nas hienas-malhadas também amplia a compreensão sobre outras espécies. Casos de predominância reprodutiva feminina já haviam sido registrados em cavalos-marinhos, onde os machos assumem os cuidados parentais, e em suricatos, nos quais uma única fêmea dominante monopoliza a reprodução. O novo estudo acrescenta um terceiro mecanismo para explicar esse fenômeno: a transmissão hereditária dos privilégios sociais pela linhagem materna.
A descoberta reforça a importância de estudos ecológicos de longa duração para compreender o funcionamento das populações silvestres. Ao acompanhar sucessivas gerações, torna-se possível identificar processos invisíveis em análises de curto prazo, revelando como organização social, parentesco e acesso aos recursos naturais influenciam a evolução e a permanência das espécies ao longo do tempo.
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