Árvore na Floresta Nacional de Caxiuanã (PA). Foto: César Favacho, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons
Por Luís Patriani – Mongabay | Uma pergunta paira no ar e na terra — ambos cada vez mais secos — da maior floresta tropical úmida do planeta. Qual o futuro da Amazônia em um possível horizonte de estiagens extremas em um cenário de aquecimento global?
Para tentar prever o destino do bioma, um audacioso experimento submeteu, por duas décadas, uma área de vegetação amazônica no Pará a um rigoroso estresse hídrico. O resultado revela um surpreendente rearranjo de sobrevivência da floresta.
O Projeto Esecaflor (Projeto de Estudo da Seca Florestal) é a mais longeva e extensa investigação científica do gênero já realizada em uma floresta tropical. Está em atividade há 25 anos, e desde então seus idealizadores vêm tentando compreender como a Amazônia poderia reagir à falta prolongada de água no solo.
Realizada em área de 1 hectare dentro dos cerca de 318 mil hectares da Floresta Nacional de Caxiuanã (PA), a seca experimental começou a ser aplicada em 2001, quando 6 mil painéis retangulares e transparentes de plástico foram instalados sob a copa das árvores, entre 1 e 4 metros acima do solo, para desviar cerca de 50% da água da chuva para fora da área, por meio de calhas e canaletas.
Ao lado, outra área de igual tamanho é mantida sem intervenção, como medida de comparação. Em ambas as parcelas de floresta, pesquisadores monitoram a umidade do solo, a temperatura do ar, o crescimento das árvores, o fluxo de seiva e o desenvolvimento das raízes. Duas torres de 40 metros de altura, dotadas de radares da Nasa, enviam os dados ao Laboratório de Propulsão a Jato da agência espacial norte-americana, na Califórnia, onde as informações são processadas.
O ecólogo britânico Patrick Meir, da Universidade de Edimburgo, na Escócia, relembra o encontro em 1998, ocorrido na capital Belém, com o meteorologista Antonio Lôla da Costa, da Universidade Federal do Pará (UFPA), e o falecido agrônomo Samuel de Almeida, do Museu Paraense Emílio Goeldi, quando esboçavam juntos um plano para investigar como o armazenamento de carbono efetuado pela floresta era potencialmente sensível à seca.
“Eu sabia que havia uma enorme lacuna no entendimento do funcionamento dessa sensibilidade, e nos perguntávamos se havia o risco de um aumento generalizado da mortalidade de árvores com as futuras mudanças climáticas”, diz.
Segundo Meir, modelos computacionais já indicavam a morte generalizada das árvores impulsionada pela mudança climática, mas as previsões de como a Amazônia responderia à seca prolongada se mostravam ainda incertas.
“Precisávamos de um novo tipo de experimento que explorasse a resposta à seca em escala florestal, bem como em folhas, galhos ou árvores individuais. Essa foi a nova ciência que desenvolvemos no último quarto de século, para contribuir com o entendimento da difícil questão do ponto de inflexão da Amazônia”.
Ao longo de 25 anos, submetida a uma intensa competição por água, a área do Esecaflor transformou-se em uma floresta mais baixa e menos densa, com perda de biomassa — folhas, galhos, troncos e raízes das árvores — e menor capacidade de armazenamento de dióxido de carbono. No entanto, demonstrou uma notável adaptação ao conseguir redistribuir a pouca água disponível no solo e alcançar uma nova estabilidade eco-hidrológica.
“Nós tínhamos recursos financeiros para três anos”, diz Antonio Lôla da Costa, coordenador nacional do projeto. “E aí vão surgindo perguntas, e em 25 anos a gente já publicou mais de cem artigos internacionais, formamos mais de cem doutores, pós-doutores e mestres, e continuamos respondendo perguntas nesta trajetória”.
O mais recente estudo publicado pelo grupo, formado por pesquisadores britânicos e brasileiros, foi publicado em maio de 2025 na revista Nature Ecology & Evolution e conta em detalhes a dramática cronologia de mudança desta pequena parcela de selva amazônica.
“Nos primeiros três anos, por conta da reserva de umidade da floresta, nada aconteceu”, conta Lôla. “Em cinco anos, iniciou a mortalidade, principalmente das árvores de grande porte com diâmetro do tronco acima de 50 centímetros, que necessitam de mais água e sentem mais a deficiência hídrica. Com oito anos, tínhamos perdido 40% do peso total da biomassa”.
Quando o experimento completou 15 anos, houve o pico máximo de perdas da biomassa e a dúvida que pairava no ar entre os cientistas: se a floresta ia colapsar ou se ainda tinha chances de reagir e se regenerar. E o Esecaflor prosseguiu.
“Em 2024, chegamos a uma das conclusões mais interessantes”, relata Lôla. “Com o desaparecimento das grandes árvores, perdemos quase 50% da biomassa. Mas a pequena quantidade de água disponível foi suficiente para que as árvores menores a redistribuíssem até conseguirem reverter o sinal de mortalidade. Elas estavam desaparecendo e, em um determinado momento, entraram em harmonia e voltaram a crescer. Foi uma grande surpresa!”
Especialista em ecossistemas tropicais e uma das principais lideranças do Esecaflor, a britânica Lucy Rowland, da Universidade de Exeter, no Reino Unido, aponta uma questão que ainda está em aberto: por que as árvores são mais vulneráveis? Ela ressalta que, ao contrário da seca artificial do experimento, a seca natural é sentida pela vegetação tanto no solo quanto no ar.
“No início, pensávamos que a morte das árvores maiores se devia a um sistema hidráulico inerentemente mais vulnerável à seca, por seus vasos serem mais propensos à embolia”, explica ela. “Mas a causa mais provável é que elas possuem copas mais altas, se destacam no dossel e, portanto, estão mais expostas a uma atmosfera mais seca e quente”.
Rowland destaca que a porção de floresta submetida ao experimento ainda pode ser considerada floresta tropical, embora degradada. E contesta o uso de “savana” para descrever essa possível nova Amazônia submetida a anos de seca.
“A floresta tropical jamais se transformará em savana, mas em um ecossistema novo e altamente degradado, para o qual não temos referências naturais. Precisamos ter muito cuidado ao usar o termo ‘savana’ com conotação negativa. As savanas do Brasil, os cerrados, não são consequência da degradação florestal. São ecossistemas de grande valor e ricos em espécies, e o fato de a savana ser vista equivocadamente como menos valiosa do que a floresta tropical, quase como um “terreno baldio”, impulsionou a destruição em massa desse importante bioma”.
O Esecaflor agora encontra-se em uma nova etapa. Em novembro de 2024, após 23 anos de seca artificial, a cobertura dos painéis plásticos que desviavam a água das chuvas foi retirada. A precipitação voltou a cair em condições normais, assim como acontece na parcela de controle. O projeto agora quer responder novas perguntas.
Uma das dúvidas é se as espécies de árvores de grande porte podem voltar a crescer neste novo ambiente. É importante lembrar que essas árvores — entre elas a sumaúma, a andiroba e o angelim-vermelho — subtraem carbono da atmosfera e reciclam a água da chuva por meio da transpiração, contribuindo para a formação dos rios voadores.
“Essa é uma pergunta muito pertinente, e um dos motivos pelos quais manter o experimento em andamento é crucial”, diz Rowland. “A recuperação dessas grandes espécies arbóreas não será um processo rápido; algumas delas podem levar décadas ou séculos para se regenerarem, período durante o qual esperamos que esses ecossistemas florestais continuem a ser atingidos por secas naturais mais frequentes.”.
Patrick Meir concorda que entender as diferenças entre tamanhos e espécies é uma das prioridades atuais do projeto. “Embora haja mais água disponível por árvore no momento, a recuperação dessas árvores poderá ser mais lenta do que a de espécies mais resistentes à estiagem. A floresta afetada pela seca experimental parece estável por enquanto, mas tem biomassa e porte menores do que antes e é mais aberta, podendo ser mais vulnerável a futuros extremos climáticos.”Já Lôla, que nos últimos trinta anos tem navegado 18 horas de barco todos os meses de Belém até a Floresta Nacional de Caxiuanã, localizada ao sul da Ilha de Marajó, onde passa até dez dias imerso na mata, recorre aos outros argumentos para sensibilizar as pessoas.
“A cada dia, quando a gente viaja lá para a nossa floresta, a gente passa por balsas e mais balsas carregadas de toras de madeira”, conta. “O Esecaflor é um experimento controlado de seca no solo, bem diferente das grandes queimadas e do desmatamento generalizado que os humanos imprimem na natureza. A floresta não vai entrar em colapso se soubermos manejá-la. Mas se for lá com uma máquina e destruir 100, 200, 300 hectares em um dia, aí ela não vai reagir nunca.”
“Nós medimos o crescimento da árvore com equipamentos a cada quinze minutos”, acrescenta Lôla. “Então você vê o pulso da árvore. É como um eletrocardiograma. Ela respira e vai crescendo. Quando a árvore começa a ficar doente, esse pulso diminui, e quando ela morre, aparece só um risco na tela do monitor. É um ser vivo que respira, que sente. Só que ela não sabe correr, não sai do lugar. Se desaparecerem, todos nós no planeta Terra vamos juntos.”
Este texto foi originalmente publicado pelo Mongabay, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.
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