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O avanço das ondas de calor já produz um prejuízo econômico que vai muito além dos danos visíveis provocados por incêndios, secas e eventos extremos. O aumento da temperatura reduz a capacidade de trabalho, especialmente em regiões quentes e úmidas, e transforma o estresse térmico em um dos principais custos associados às emissões de dióxido de carbono (CO₂). Um estudo da Universidade da Califórnia, Davis (UC Davis), publicado na revista Nature Climate Change, calculou esse impacto e estimou que cada tonelada de CO₂ emitida em 2025 correspondeu a US$ 41 em perda de produtividade do trabalho.
A pesquisa também incorporou esse efeito à estimativa do chamado custo social do carbono, uma métrica utilizada para calcular os prejuízos econômicos associados à emissão de uma tonelada adicional de CO₂. A partir dos novos resultados, os pesquisadores estimam um custo social do carbono de aproximadamente US$ 200 por tonelada.
Esse valor é semelhante à estimativa apresentada pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) em 2023. A métrica pode ser aplicada em análises de custo-benefício, planejamento de infraestrutura, regulamentação de serviços públicos e definição de políticas relacionadas à precificação das emissões.
O estudo indica ainda que a perda de produtividade associada ao calor representa o segundo maior componente do custo social do carbono, atrás das mortes relacionadas ao calor.
Para estimar os prejuízos, os pesquisadores combinaram projeções de estresse térmico com informações sobre intensidade do trabalho e exposição ao ambiente externo em diferentes regiões e setores econômicos.
Um dos indicadores utilizados foi a temperatura de bulbo úmido de globo, conhecida pela sigla WBGT. A métrica considera diferentes condições meteorológicas que interferem na capacidade do corpo humano de dissipar calor, como temperatura, umidade, vento e radiação.
Essa combinação permite avaliar o risco térmico de maneira mais próxima das condições enfrentadas por trabalhadores durante atividades físicas.
A exposição varia consideravelmente de acordo com a profissão e o local onde o trabalho é realizado. Trabalhadores rurais e da construção civil, por exemplo, costumam enfrentar maior risco porque realizam atividades fisicamente intensas ao ar livre. A exposição também pode ser elevada entre trabalhadores que permanecem em ambientes internos sem sistemas adequados de climatização.
A disponibilidade de ar-condicionado apresenta diferenças expressivas entre os países. Em um conjunto de dados que analisou 33 nações, a proporção de residências com acesso ao equipamento variou de 0% no Sudão do Sul a 90% no Japão.
O problema ganha dimensão econômica especialmente em regiões que combinam altas temperaturas, elevada umidade e grandes populações expostas ao calor.
Entre os territórios destacados pela pesquisa estão Índia, Nigéria, China e Paquistão, além de países do Oriente Médio e da África Subsaariana.
A distribuição dos impactos também depende da estrutura econômica de cada região. Setores com grande quantidade de trabalhadores envolvidos em atividades físicas e expostas ao ambiente externo tendem a sofrer perdas maiores à medida que os episódios de calor intenso se tornam mais frequentes.
A agricultura está entre as atividades mais vulneráveis. Em áreas rurais, trabalhadores podem passar várias horas sob radiação solar enquanto realizam tarefas fisicamente exigentes, elevando o risco de exaustão pelo calor e reduzindo o ritmo de trabalho.
A construção civil enfrenta dinâmica semelhante, especialmente em locais onde a atividade ocorre durante os períodos mais quentes do dia.
O estudo também aponta medidas capazes de diminuir a exposição dos trabalhadores. Entre elas estão o acesso à sombra, disponibilidade de água, pausas regulares e reorganização das jornadas para horários mais frescos sempre que as características da atividade permitirem.
Sistemas de ar-condicionado podem oferecer proteção adicional para trabalhadores em ambientes internos, embora seu acesso seja bastante desigual entre países e regiões.
A adaptação, porém, ganha importância à medida que os extremos de temperatura se tornam mais frequentes e intensos. Para os autores, empregadores e formuladores de políticas públicas precisam considerar o calor como um risco ocupacional relevante e incorporar medidas de proteção às condições de trabalho.
O chamado custo social do carbono procura transformar em valor monetário diferentes prejuízos provocados pela emissão de gases de efeito estufa. A conta pode incluir impactos sobre saúde, agricultura, produtividade, mortalidade e outros setores afetados pelo aquecimento global.
Ao acrescentar as perdas de produtividade decorrentes do estresse térmico, o novo estudo amplia a dimensão econômica atribuída às emissões.
A pesquisa sustenta que as estimativas sobre os danos climáticos estão se tornando mais precisas. Os autores defendem que o custo social do carbono pode servir como uma ferramenta para análises de políticas climáticas e decisões econômicas.
O resultado também evidencia uma dimensão menos visível da crise climática: cada tonelada de CO₂ liberada na atmosfera pode contribuir para condições de trabalho mais difíceis anos depois, afetando diretamente o tempo, a intensidade e a capacidade das pessoas de realizar suas atividades.
Publicado em 2026 na Nature Climate Change, o estudo é de autoria de pesquisadores da UC Davis, Purdue University e Stanford University. A pesquisa foi publicada sob o título New labour and agricultural damages improve climate cost estimates, com DOI 10.1038/s41558-026-02749-z.
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