Os manguezais são ecossistemas costeiros de transição entre o ambiente terrestre e o ambiente marinho, localizados em áreas estuarinas – Foto: Heris Luiz Cordeiro Rocha/Wikimedia Commons
Por Amanda Yoshizaki – Jornal da USP | Manguezais são reconhecidos como importantes aliados contra as mudanças climáticas por armazenarem grandes quantidades de carbono, principalmente no solo. Mas, em um experimento realizado por pesquisadores da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, foi observado que mesmo em sistemas intocados, com mínima intervenção humana, o solo pode ter alterações significativas diante do aquecimento, aumentando as emissões de metano (CH4), um dos gases do efeito estufa. De acordo com os cientistas, o metano retém mais calor na atmosfera do que o dióxido de carbono, levando a um impacto imediato ainda mais agressivo no aquecimento do planeta.
O estudo, publicado na revista Atmospheric Environment, analisou que a emissão de CH4 aumentou cerca de 6,4 vezes em relação à condição inicial. Já a liberação de dióxido de carbono (CO2) caiu cerca de 73% após seis meses de aquecimento experimental em manguezais localizados no sistema costeiro Cananéia-Iguape, no litoral sul do Estado de São Paulo, um dos complexos estuarinos mais bem preservados do Brasil.
A mudança, de acordo com o estudo, está ligada às condições do próprio solo. Os manguezais são ecossistemas costeiros periodicamente alagados, o que reduz a quantidade de oxigênio (O2) disponível no solo. Segundo Manoella Molitor, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia Física da USP e primeira autora do artigo, nesses ambientes, a decomposição da matéria orgânica, produzida pela vegetação ou ali depositada, ocorre principalmente por processos anaeróbicos, que não dependem de O2 e possuem um ritmo lento. Como a entrada de matéria orgânica é mais rápida do que o solo consegue decompor, o saldo final é um grande acúmulo de carbono ao longo do tempo.
Para simular o aumento da temperatura, a equipe instalou câmaras de topo aberto sobre partes do solo. Elas permitem a entrada da radiação solar e reduzem a perda de calor, o que faz com que a temperatura no interior fique 7 a 12 graus Celsius (ºC) acima das condições ambientais externas.
Durante o experimento, os pesquisadores acompanharam mudanças nas características físico-químicas do solo e mediram os fluxos de CO2 e CH4. O objetivo era observar como o ambiente responderia ao aumento de temperaturas. “A gente construiu unidades experimentais em manguezais para simular cenários de mudanças climáticas”, conta Hermano Queiroz, professor do Departamento de Geografia da USP e orientador da pesquisa.
De acordo com Manoella Molitor, o aumento da temperatura modifica as condições em que a decomposição acontece, pois intensifica a atividade metabólica e acelera o consumo do oxigênio disponível. “O ambiente se torna mais redutor, ou seja, passa a oferecer condições mais favoráveis aos processos anaeróbios”, diz a pesquisadora.
À medida que o oxigênio disponível no solo diminui, os microrganismos passam a utilizar outras substâncias para decompor a matéria orgânica, como o ferro e o sulfato. Em condições ainda mais escassas em O2, esse processo pode favorecer a produção de metano. Com o aquecimento, os microrganismos ficam mais ativos e consomem o oxigênio mais rapidamente, tornando o solo cada vez mais pobre em O2 e favorecendo a produção e a liberação de CH₄ para a atmosfera.
Durante o experimento, as emissões de CO2 caíram cerca de 73% já no primeiro período de aquecimento, refletindo uma rápida mudança nas vias de mineralização do carbono no solo. Em contraste, as emissões de CH4 aumentaram progressivamente ao longo do experimento, chegando a valores aproximadamente 6,4 vezes maiores sob o cenário de aquecimento.
A redução das emissões de CO2 indica uma mudança na forma como o carbono está sendo mineralizado. “O que nos preocupa é o aumento progressivo e consistente das emissões de CH4, que sugere uma tendência de alteração no regime de emissão desses solos sob condições de aquecimento”, afirma Queiroz, ao Jornal da USP.
“Há um entendimento de que os manguezais são ecossistemas extremamente resilientes, mas os nossos dados estão mostrando que, na verdade, eles têm as suas vulnerabilidades” – Hermano Queiroz
Segundo o docente, o CH4 possui potencial de aquecimento global cerca de 30 vezes superior ao do CO2. Por isso, a mudança observada no experimento pode comprometer parte do benefício climático esperado de um solo que, em condições naturais, funciona como importante reservatório de carbono.
“Os solos de mangue, que têm sido considerados como os grandes aliados dentro desse cenário de mudanças climáticas, podem se tornar vulneráveis por conta dessa alteração de funcionamento, e passam a emitir grandes quantidades de CH4”, destaca o professor.
Os pesquisadores ressaltam que o experimento não permite afirmar que essa mudança será permanente ou que ocorrerá da mesma maneira em todos os manguezais.
As câmaras simulam um cenário controlado e os resultados correspondem a uma primeira resposta do solo ao aquecimento. A equipe pretende acompanhar o fenômeno por períodos mais longos para verificar se o aumento do metano permanece, e compreender como seria possível evitar ou reverter essa mudança.
O estudo sobre os impactos do aquecimento climático nos manguezais foi motivado por um estudo anterior da equipe, publicado na revista Forest, em que analisaram como os solos desse ecossistema aparecem na produção científica. “Chegamos a uma lacuna de conhecimento: poucos cientistas, em níveis globais, trabalham com o solo desse ecossistema, na visão de entender como funciona o potencial de combater as mudanças climáticas”, relata Queiroz.
A análise bibliométrica utilizou a base Scopus e examinou trabalhos publicados entre 1950 e 2025. A equipe começou com pesquisas gerais sobre manguezais e foi afunilando progressivamente o levantamento para incluir mudanças climáticas, mitigação e os processos relacionados ao solo.
Dos 30.084 artigos sobre manguezais encontrados no primeiro levantamento, apenas 25 relacionavam explicitamente solos de manguezais à mitigação das mudanças climáticas. O número corresponde a 0,08% do total. Segundo Manoella Molitor, quando o armazenamento de carbono dos manguezais é analisado, os estudos costumam direcionar a atenção para a vegetação e a biomassa. “O solo, apesar de concentrar grande parte do carbono, recebe menos destaque” relata a autora.
A pesquisa observou que o aumento no volume de publicações após 2009 coincide com o surgimento do conceito do carbono azul, que reconheceu a capacidade dos ecossistemas costeiros e marinhos de sequestrar carbono.
Além da tendência temporal, o estudo também fez um recorte para os países que mais produzem artigos sobre manguezais. “O domínio na produção de publicações em uma abordagem mais generalizada sobre manguezais são de países que não têm grandes áreas de manguezais, como os Estados Unidos e China, por exemplo”, explica Queiroz. O orientador explica que isso ocorre devido aos melhores recursos e infraestruturas desses territórios.
As pesquisas mais específicas sobre manguezais são protagonizadas por países com maior proximidade com esse ecossistema, como Brasil, Austrália e Malásia. “O que os resultados apontam é que, apesar de toda a infraestrutura disponível em países como Estados Unidos e China, a proximidade geográfica com o ecossistema é um fator determinante para a produção de trabalhos voltados aos solos de mangue e às mudanças climáticas, além de refletir uma maior participação de cientistas especializados em solos”, diz Queiroz.
O projeto de pesquisa foi financiado com recursos do Projeto BlueShore, financiado pela Petronas Petróleo Brasil Ltda., por meio da cláusula de investimento em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). O BlueShore é desenvolvido no âmbito do Research Centre for Greenhouse Gas Innovation (RCGI) da USP.
Os artigos Experimental warming alters iron–carbon interactions and CO2 and CH4 emissions in pristine mangrove soils e The Overlooked Carbon Reservoir: Marginalization of Mangrove Soils in Climate Change Mitigation Research estão disponíveis on-line.
Mais informações: manumolitor@usp.br, com Manoella Molitor Martins, e hermanomelo@usp.br, com Hermano Melo Queiroz
Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.
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