Saúde e Bem-Estar

Uma única dose de psilocibina devolve temporariamente funções perdidas em paciente com Alzheimer

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O potencial terapêutico da psilocibina voltou a chamar a atenção da comunidade científica após um estudo relatar melhorias temporárias em uma paciente de 80 anos com Alzheimer avançado. A mulher, que convivia com a doença havia uma década, recuperou capacidades perdidas anos antes, incluindo comunicação verbal mais elaborada, maior autonomia física e controle urinário, após receber uma dose elevada da substância encontrada em cogumelos do gênero Psilocybe.

O caso foi descrito em um artigo publicado na revista científica Frontiers in Neuroscience. Embora os pesquisadores ressaltem que a intervenção não reverteu a progressão do Alzheimer, os resultados sugerem que determinadas funções cerebrais podem permanecer preservadas mesmo em estágios avançados da doença e serem reativadas temporariamente sob condições específicas.

O Alzheimer figura entre as formas mais comuns de demência e provoca deterioração gradual das capacidades cognitivas, motoras e de comunicação. Com o envelhecimento da população mundial, o número de diagnósticos segue em crescimento, ampliando a busca por alternativas terapêuticas capazes de melhorar a qualidade de vida dos pacientes.

Nesse contexto, a psilocibina tem despertado interesse crescente. Utilizada há milênios por povos da Mesoamérica, a substância é conhecida por sua ação sobre receptores de serotonina no cérebro. Pesquisas recentes indicam que compostos psicodélicos podem aumentar a comunicação entre diferentes redes neurais e estimular a neuroplasticidade, processo relacionado à formação de novas conexões entre células nervosas.

Para investigar esse potencial, os pesquisadores acompanharam uma paciente com Alzheimer avançado que apresentava severas limitações. Antes do tratamento, ela conseguia pronunciar apenas poucas palavras, necessitava de auxílio para caminhar e havia perdido o controle da bexiga. A participante recebeu uma dose oral única de cinco gramas de cogumelos contendo psilocibina, considerada elevada para os padrões de pesquisa. Um mês depois, foi administrada uma segunda dose de três gramas.

As mudanças começaram a ser observadas menos de um dia após a primeira administração. Cerca de 19 horas depois, a paciente conseguiu manter conversas prolongadas sobre acontecimentos de sua vida, algo incompatível com seu estado anterior. Também passou a demonstrar emoções de forma mais evidente, responder ao humor de familiares e estabelecer contato visual com maior frequência.

Os avanços se estenderam a outras áreas. Após anos utilizando fraldas, a paciente apresentou melhora significativa do controle urinário, incluindo períodos noturnos sem episódios de incontinência. Houve ainda recuperação parcial da capacidade de se vestir sozinha, além do retorno de expressões faciais como sorrisos espontâneos.

Segundo os autores, a mulher também passou a caminhar e interagir por períodos mais longos e conseguiu reconhecer alguns familiares. Parte dessas melhorias permaneceu por semanas, inclusive após a segunda administração da substância.

Os pesquisadores classificaram o trabalho como um estudo observacional exploratório baseado em um único caso, o que impede conclusões amplas sobre eficácia e segurança. Ainda assim, os resultados reforçam a necessidade de investigações mais abrangentes para compreender como a psilocibina atua no cérebro de pessoas com doenças neurodegenerativas.

Os cogumelos que produzem psilocibina existem há milhões de anos e podem ter surgido muito antes do desaparecimento dos dinossauros. Apesar de sua longa presença na história natural e cultural da humanidade, apenas nas últimas décadas a ciência passou a explorar de forma sistemática seus possíveis efeitos terapêuticos em transtornos neurológicos e psiquiátricos.

O estudo acrescenta novas evidências ao debate sobre o uso controlado de substâncias psicodélicas na medicina. Embora ainda distante de uma aplicação clínica consolidada, a observação de ganhos funcionais temporários em uma paciente com Alzheimer avançado abre novas frentes de pesquisa sobre mecanismos cerebrais que permanecem ativos mesmo durante fases severas da doença.

Stella Legnaioli

Jornalista, gestora ambiental, ecofeminista, vegana e livre de glúten. Aceito convites para morar em uma ecovila :)

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