Animais domésticos

Teoria do Elo: quem protege animais está protegendo mulheres, crianças e idosos

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Adolescentes torturam com pregos um cachorro comunitário. Uma criança queima o gato da família com um cigarro. Um homem ameaça espancar o cachorro da companheira caso ela denuncie as agressões. Cenas como essas, para além da crueldade evidente, são sinais de alerta vermelho para um risco muito maior: a violência contra pessoas. Essa conexão perigosa e comprovada é conhecida mundialmente entre especialistas como “The Link” – em português, “O Elo”.

A Teoria do Elo (ou The Link) demonstra a estreita conexão entre a crueldade contra animais e a violência interpessoal, especialmente em contextos de violência doméstica contra mulheres, crianças e idosos. Estabelecida a partir de estudos como os de Phil Arkow e Frank Ascione (1999), ela aponta que maus-tratos a animais frequentemente funcionam como sentinela ou indicador de abusos humanos. 

Mais do que uma teoria, “O Elo” é um princípio forense e de saúde pública que estabelece uma ligação robusta entre maus-tratos intencionais a animais e violência que aquele que maltrata um animal está em alto risco de ser ou se tornar também violento com pessoas, especialmente no ambiente doméstico.

A percepção dessa conexão não é nova. O FBI, desde os anos 1970, já utilizava históricos de crueldade animal na análise de assassinos em série. No entanto, foi na década de 1990 que a pesquisa ganhou corpo acadêmico sólido.

O psicólogo norte-americano Frank R. Ascione, um dos principais nomes no campo, foi pioneiro em definir e documentar cientificamente o fenômeno. Em seu trabalho seminal de 1993, “Children Who Are Cruel to Animals: A Review of Research and Implications for Developmental Psychopathology”, e no livro fundacional “The Abuse of Animals and Human Violence: Linking Cruelty to Animals to Interpersonal Violence” (1999), Ascione consolidou as evidências.

Paralelamente, o pesquisador e ativista Phil Arkow tornou-se uma força motriz na aplicação prática desse conhecimento. Arkow trabalhou incansavelmente para treinar redes de proteção – como serviços de controle animal, abrigos para mulheres e departamentos de polícia – a reconhecerem o abuso animal como um indicador sentinela de violência familiar oculta.

Décadas de estudos em criminologia, psicologia e serviço social corroboram “O Elo”. As pesquisas apontam que:

  1. Violência doméstica: Entre 50% e 75% das mulheres vítimas de violência doméstica relatam que seus agressores também ameaçaram, feriram ou mataram seus animais de estimação. O pet é usado como uma ferramenta de controle psicológico, coerção e silenciamento.
  2. Comportamento antissocial futuro: A crueldade animal na infância é um dos critérios de diagnóstico para Transtorno de Conduta e um dos preditores mais fortes para violência e criminalidade na idade adulta, incluindo agressão interpessoal e crimes contra a propriedade.
  3. Perfil de criminosos violentos: Estudos retrospectivos com assassinos em série e estupradores frequentemente revelam um histórico de tortura de animais na juventude.

Para Phil Arkow, a lição é clara: “Quem protege animais está protegendo pessoas, e quem protege pessoas precisa olhar para os animais.”

Compreender “O Elo” é um passo fundamental para uma sociedade mais segura. Ele nos ensina que a luta contra a crueldade animal e a luta contra a violência doméstica são, na verdade, a mesma batalha.

Em caso de testemunha ou suspeita de abuso ou maus-tratos contra animais, é fundamental agir com responsabilidade e urgência: documente as evidências (fotos, vídeos, local, data e descrição detalhada) e denuncie imediatamente às autoridades competentes, como a polícia militar (190), a delegacia mais próxima (especializada em crimes ambientais, se houver) ou órgãos como o IBAMA (Linha Verde: 0800 061 8080) e, para animais domésticos, as secretarias municipais de Meio Ambiente ou controle de zoonoses.

No Brasil, a Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/98) prevê punição para quem comete atos de abuso, crueldade ou ferimento de animais. Se o animal estiver ferido, entre em contato com protetores independentes ou ONGs da região para possível resgate e cuidados veterinários. A denúncia pode ser anônima, e cada ação é crucial para proteger a vida e o bem-estar animal.

Stella Legnaioli

Jornalista, gestora ambiental, ecofeminista, vegana e livre de glúten. Aceito convites para morar em uma ecovila :)

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