Biomas

Secas extremas transformam Amazônia em fonte de carbono

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No coração da Amazônia, onde a névoa da manhã costuma anunciar mais um dia de vida pulsante, os cientistas testemunharam um alarmante fenômeno. Em 2023, a floresta que sempre funcionou como um gigantesco sumidouro de carbono inverteu seu papel e se tornou uma fonte emissora desses gases para a atmosfera. A conclusão é de um estudo internacional liderado pelo Instituto Max Planck de Biogeoquímica, que cruzou dados de torres de medição, satélites e modelos computacionais para entender os efeitos da seca extrema na região.

Entre setembro e novembro do ano passado, a atmosfera sobre a Amazônia atingiu níveis incomuns de aridez, enquanto as temperaturas subiram 1,5°C acima da média histórica de 1991 a 2020. Esse quadro resultou do aquecimento das águas dos oceanos Atlântico e Pacífico, que reduziu o transporte de umidade para a América do Sul. A pesquisa aponta que, de maio em diante, a vegetação já dava sinais de enfraquecimento, culminando em outubro no pico da liberação de carbono, quando o calor extremo e a baixa umidade paralisaram a capacidade de absorção da floresta.

Apesar de um primeiro semestre promissor, com maior absorção de carbono entre janeiro e abril, o balanço final do ano foi preocupante. Entre 10 e 170 milhões de toneladas de carbono foram lançadas ao ar, número que representa 30% de toda a emissão líquida registrada nas áreas tropicais do planeta em 2023. O tom crítico da análise se acentua ao descartar os incêndios como causa principal: as queimadas permaneceram dentro da média dos últimos vinte anos, indicando que o colapso foi da própria vegetação, que simplesmente deixou de realizar seu serviço ecológico com eficiência.

O Observatório da Torre Alta da Amazônia (ATTO), instalado em uma área preservada próxima a Manaus, foi peça-chave para essa descoberta. Por ser um dos poucos locais na região que coleta dados contínuos e detalhados sobre o ciclo do carbono, a torre serviu como um elo de precisão entre as medições locais e as imagens de larga escala obtidas por satélites. A riqueza de informações captadas no local permitiu aos pesquisadores traçar um paralelo preocupante: a resposta da floresta a esse estresse climático oferece um vislumbre do que pode ocorrer com o aquecimento global contínuo.

Os cientistas agora aguardam com expectativa os dados dos anos seguintes para confirmar se 2023 foi um ponto fora da curva ou o prenúncio de uma nova e perturbadora realidade para o bioma. A transformação momentânea de sumidouro em fonte de carbono aciona um sinal de alerta: a maior floresta tropical do mundo pode estar chegando a um limite crítico, com repercussões diretas no equilíbrio climático de todo o planeta.

Stella Legnaioli

Jornalista, gestora ambiental, ecofeminista, vegana e livre de glúten. Aceito convites para morar em uma ecovila :)

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