Política & Meio Ambiente

Proibição do chumbo na gasolina foi eficaz e a prova está nos fios de cabelo

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Um estudo inédito analisou cabelos de moradores do estado norte-americano do Utah coletados ao longo de um século. Os resultados traçam um gráfico alarmante da contaminação humana por chumbo e, em seguida, registram uma queda vertiginosa após a criação da Agência de Proteção Ambiental (EPA) e a implementação de regulamentos severos. A pesquisa, publicada na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, serve como um testemunho científico robusto sobre o impacto positivo da legislação ambiental na saúde pública.

A investigação foi possível graças a um traço cultural peculiar da população local: a meticulosa preservação de recordações familiares. Cientistas da Universidade de Utah conseguiram amostras de cabelos que remontam a 1916, muitas delas extraídas de antigos álbuns de família. Em laboratório, submeteu-se os fios a espectrometria de massa, técnica que detecta a concentração de elementos como o chumbo, que se acumula na superfície do cabelo e permanece estável por décadas.

Os números são contundentes. Antes de 1970, as concentrações de chumbo nos fios chegavam a 100 partes por milhão. Após a proibição gradual do metal em gasolina, tintas e tubulações, os valores caíram para 10 partes por milhão em 1990. Atualmente, estão abaixo de 1 parte por milhão. A redução chega a ser cem vezes menor em relação ao período anterior às regulações.

O chumbo, metal pesado com propriedades úteis para indústrias, revelou-se um veneno insidioso. Ele se acumula nos tecidos humanos e está associado a graves deficits de desenvolvimento em crianças. Durante décadas, foi um componente onipresente: aditivava combustíveis para melhorar a performance de motores, dava durabilidade e cor a tintas e integrava tubulações de água.

A região estudada, o Corredor Wasatch Front, no Utah, foi por anos um epicentro dessa poluição. Abrigou uma intensa atividade de fundição até meados do século XX. As chaminés das fábricas em cidades como Midvale e Murray lançavam toneladas de partículas tóxicas no ar. Combinava-se a isso o chumbo liberado pelos escapamentos de milhões de automóveis, que queimavam gasolina com até 2 gramas do metal por litro.

O estudo demonstra como a exposição era maciça e direta. As partículas de chumbo suspensas no ar depositavam-se no cabelo, eram inaladas para os pulmões e atingiam a corrente sanguínea. A análise dos fios funciona como um arquivo biológico, capturando essa exposição ambiental de forma até mais eficiente que exames de sangue, que refletem apenas a contaminação recente.

A pesquisa surge em um momento de revisão de diversas normas ambientais nos Estados Unidos, com propostas de flexibilização. Os autores enfatizam que os dados históricos funcionam como um alerta. Eles mostram de forma inequívoca que a exposição humana ao chumbo estava descontrolada e que foi contida justamente pela ação regulatória estatal.

A lição que emerge dos fios de cabelo centenários é clara. Medidas regulatórias, mesmo quando consideradas onerosas em seu momento de implementação, geram benefícios mensuráveis e duradouros para a saúde das populações. O declínio drástico dos níveis de chumbo no organismo humano é um marco de saúde pública conquistado, e um argumento científico forte para a manutenção de políticas protetivas do meio ambiente.

Stella Legnaioli

Jornalista, gestora ambiental, ecofeminista, vegana e livre de glúten. Aceito convites para morar em uma ecovila :)

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