Agroecologia

Produtores rurais que substituem pecuária por agrofloresta vegetal aumentam sua renda líquida, aponta estudo

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Subsídios públicos concentrados na pecuária, desmatamento recorde e uma dieta que adoece a população pintam um cenário de crise no campo brasileiro. Um novo estudo, no entanto, traça um caminho para reverter esse quadro ao substituir pastos por sistemas agroflorestais focados em alimentos vegetais. A mudança pode mais que dobrar a renda líquida dos produtores por hectare e transformar as propriedades rurais em sumidouros de carbono.

O relatório “Aumentando a Renda, Respeitando o Planeta, Nutrindo Pessoas”, coordenado pela organização ProVeg Brasil e realizado pela OCA (Organização Cooperativa de Agroecologia), foi apresentado durante a COP30, em Belém. A análise cruzou dados econômicos e ambientais em todos os biomas, comparando a pecuária — de corte, leite, aves e suínos — com modelos de agroflorestas sem criação animal.

Os números revelam uma disparidade produtiva. Para gerar a mesma receita bruta, a pecuária bovina demanda doze vezes mais terra do que um sistema agroflorestal vegetal. Enquanto a pecuária emite gases de efeito estufa, principalmente metano pela fermentação entérica dos animais, as agroflorestas podem alcançar um saldo negativo de carbono, capturando mais do que emitem. Em casos de transição de pecuária de baixa produtividade para modelos biodiversos e bem conectados a mercados, o aumento de renda para o agricultor pode superar 1500%.

A transformação gera impactos diretos no emprego. A pesquisa calcula que cada milhão de reais de produção anual em agroflorestas vegetais sustenta cerca de 30 postos de trabalho na cadeia. O mesmo valor aplicado na pecuária, em média, gera apenas 7 empregos. A mudança fortalece a agricultura familiar, diversifica fontes de renda e pode frear o êxodo rural.

O setor pecuário responde por aproximadamente 60% das emissões nacionais de gases de efeito estufa, de acordo com dados do SEEG. O metano do rebanho bovino brasileiro, por si só, supera as emissões totais de um país como a Itália. Entre 1985 e 2023, mais de 90% do desmatamento na Amazônia teve a abertura de pastos como causa principal, aponta o MapBiomas.

Apesar de ocupar uma área duas vezes maior que a agricultura de lavouras, a pecuária fornece apenas 37% das calorias consumidas pelos brasileiros na forma de alimentos in natura e minimamente processados — base de uma alimentação saudável segundo o Guia Alimentar para a População Brasileira. A agricultura responde pelos 63% restantes. Cerca de três quartos da soja produzida no mundo viram ração animal, pressionando ainda mais as fronteiras agrícolas.

O estudo argumenta que realocar incentivos públicos é um passo decisivo. A proposta é fazer da transição para agroflorestas vegetais uma política de Estado, integrando ações sociais, agrárias, alimentares e climáticas. Programas como o Pronaf e a Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) precisam de mais recursos e foco nesse modelo. Ao mesmo tempo, o setor financeiro pode restringir créditos para pecuária em áreas de desmatamento e canalizar investimentos para projetos agroflorestais regenerativos.

Um projeto piloto em andamento no Paraná ilustra a transição. No município de Ortigueira, um produtor familiar recebe suporte técnico gratuito para trocar a criação de gado por uma agrofloresta diversa. Feijão, milho, banana, melancia, mamão e abóbora devem abastecer cantinas escolares locais, com planos para incluir café e erva-mate no futuro. O diagnóstico inicial mostrou que a pecuária não era rentável e limitava a autonomia e a qualidade de vida da família. A expectativa é de que a produção vegetal gere uma renda dez vezes maior já no primeiro ano.

O relatório conclui que a escalabilidade dos sistemas agroflorestais vegetais depende de uma governança coordenada entre ministérios, instituições financeiras, cientistas e agricultores. A medida que o modelo se consolida como prioridade no desenvolvimento rural, ele oferece uma resposta conjunta para os desafios econômicos do campo, da crise climática e da segurança alimentar.

Stella Legnaioli

Jornalista, gestora ambiental, ecofeminista, vegana e livre de glúten. Aceito convites para morar em uma ecovila :)

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