Matsuo: “O El Niño é só um combustível a mais na fogueira que já está ardendo” (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)
Por Maria Fernanda Ziegler – Agência FAPESP | Inundações, deslizamentos, secas, incêndios florestais e ondas de calor estão se tornando mais intensos e frequentes. É um efeito das mudanças climáticas causadas pela ação humana. Apesar de ser um fato estabelecido pela ciência, há ainda uma resistência em enxergar esses eventos como parte de um processo construído socialmente e não como fatalidades inevitáveis. Para a pesquisadora Patrícia Mie Matsuo, professora da Universidade Federal do ABC (UFABC), diante desse cenário, torna-se urgente construir uma cultura de prevenção de riscos socioambientais, e a educação é o eixo estratégico para essa transformação.
“Precisamos desconstruir a ideia de que os desastres são naturais. Eles são processos sociais construídos a partir da desigualdade, da pobreza e da vulnerabilidade. Quando chamamos de ‘natural’, parece castigo divino, uma sina da qual não podemos escapar. Sem esse entendimento fica difícil fortalecer uma cultura de prevenção e redução de riscos”, afirmou Matsuo, em entrevista à Agência FAPESP. A conversa ocorreu durante o 6º Workshop do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), realizado nos dias 23 e 24 de setembro, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Vencedora do Prêmio Capes de Tese 2023 na área de Ensino, com a análise de projetos de prevenção de desastres em 238 escolas brasileiras, Matsuo concluiu o doutorado em Ensino de Ciências na Universidade de São Paulo (USP) e realizou pós-doutorado no Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP), com apoio da FAPESP. Atuou como pesquisadora no Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e como gestora técnica na elaboração dos Planos de Contingência para Escolas Resilientes da Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul, após as enchentes de 2024.
Na entrevista a seguir, ela defende que o enfrentamento de desastres vai além de obras emergenciais e que a escola tem um papel estratégico por ser um espaço central na sociedade. “Alertas e ações de recuperação são importantes, mas não bastam. Sem trabalho preventivo e coletivo com as comunidades, não há transformação real do território.”
Agência FAPESP – Você pesquisa educação e prevenção de desastres. O que gostaria que fosse incorporado à consciência coletiva sobre o tema?
Patricia Matsuo – Que os desastres, como as enchentes no Rio Grande do Sul ou a seca na Amazônia, não são meramente naturais. Eles são processos sociais construídos a partir da desigualdade, da pobreza e da vulnerabilidade social. Meteorologistas, climatologistas e outros cientistas já sabem que existe um papel humano nesses eventos extremos. É preciso, portanto, um olhar crítico, pois, quando adotamos o termo ‘natural’, parece que é um castigo divino, uma sina. Se eu entendo que é um castigo divino, eu não posso fazer nada, preciso me conformar. Um dos pontos principais da minha pesquisa é tentar desconstruir essa ideia.
Agência FAPESP – Isso é ainda mais importante em ano de super El Niño.
Matsuo – Importante agora e depois também, pois o El Niño é só um combustível a mais na fogueira que já está ardendo, que são as mudanças climáticas. A tendência é que, com o aumento global da temperatura, os eventos climáticos extremos fiquem mais intensos e frequentes.
Agência FAPESP – Como deve ser a abordagem da prevenção e enfrentamento de desastres?
Matsuo – Não adianta apenas fazer obras de infraestrutura. Sem um trabalho comunitário com a população que vive no entorno, não há transformação real do território. Não basta alertar se a comunidade não está envolvida no processo. É preciso trabalhar com as pessoas que vivem ali, construir conhecimento, criar estratégias preventivas, fortalecer redes locais e pensar de modo coletivo sobre como transformar o território. A escola tem papel central nisso, pois ela pode formar uma nova geração consciente dos riscos que estão sendo construídos no seu bairro, na sua cidade e nos espaços comunitários.
Agência FAPESP – A ideia é incluir as pessoas no mapeamento de riscos?
Matsuo – Sim. Costuma-se acreditar que o mapeamento de áreas de risco é algo meramente técnico, feito com base em topografia, cursos d’água e modelos matemáticos. Mas minha pesquisa mostra que isso é insuficiente. É essencial incluir o conhecimento da comunidade que sabe, por exemplo, que a casa do seu João é a primeira a encher. Que também sabe qual casa tem um idoso cadeirante, ou uma criança autista, que pode ficar incomodada com o barulho das sirenes. Assim, na hora de formular um plano comunitário de evacuação para um determinado bairro, haverá alguém para se lembrar desses moradores. É o tipo de informação que um mapa técnico sozinho não vai conseguir indicar.
Agência FAPESP – Qual é exatamente o papel da escola na prevenção de riscos?
Matsuo – A escola pode ter vários papéis em relação a esse tema. Um que é fundamental é poder atuar de forma integrada em diferentes setores: na pedagogia, na infraestrutura e na articulação comunitária. Mas a temática da prevenção dos riscos e desastres não deve ser tratada como uma disciplina isolada ou sobrecarga para os professores. Uma estratégia é integrar o tema a disciplinas como geografia e matemática, analisando chuvas, ondas de calor, arborização e condições do bairro. Mas é importante também que a escola direcione o olhar das crianças para o seu próprio território, reconhecendo rios, bueiros, locais que costumam encher, para que os alunos identifiquem sinais de perigo que muitas vezes passam despercebidos na rotina diária. Outro ponto importante é formar e orientar os educadores para abordarem temáticas socioambientais e criar planos de contingência específicos para a realidade de cada instituição. Isso pode ser feito por meio de parcerias com a Defesa Civil e bombeiros para o mapeamento de áreas de risco, rotas de fuga e planos de evacuação. Dá para fazer bastante coisa, principalmente se pensarmos no efeito multiplicador e de influência que as escolas têm nas famílias e em todo o território.
Agência FAPESP – Que tipos de parcerias as escolas podem buscar para fazer esse trabalho?
Matsuo – Esse é ainda um tema muito recente para as escolas brasileiras. Por isso, acredito que a parceria seja fundamental. A Defesa Civil tem conhecimento técnico sobre ameaças e vulnerabilidades do território. Muitas vezes começa com uma ação pontual como uma palestra, mas isso pode abrir portas para projetos maiores e contínuos. A escola não precisa saber tudo; ela precisa saber com quem conversar na sua região. Além da Defesa Civil, outros exemplos importantes de parceria são as igrejas, os agentes de saúde, as associações comunitárias e os projetos universitários.
Agência FAPESP – Crianças pequenas geralmente têm muito medo de eventos extremos, podendo ficar ansiosas ou muito preocupadas. Como tratar o tema?
Matsuo – Professores da educação infantil têm habilidades e competências para abordar essa temática de uma forma não alarmista. Porque a questão não é se amanhã vai chover, é quanto vai chover. E é possível desenvolver esse exercício do quanto vai chover sem trazer muito alarme. É possível desenvolver esse exercício de medição sem trazer pânico. Pode-se construir um pluviômetro artesanal com garrafa PET, numerá-lo, escolher coletivamente um local no pátio da escola e verificar diariamente se choveu bastante. É uma questão que a gente precisa começar a discutir, até porque as crianças são um dos grupos mais vulneráveis a um desastre. Ninguém se prepara ou previne um desastre em silêncio. É preciso falar sobre a possibilidade de desastres.
Agência FAPESP – Você trabalhou como consultora técnica no Rio Grande do Sul após a tragédia de 2024. Como as escolas atuaram e o que aprenderam?
Matsuo – Eu cheguei um ano depois, mas os relatos mostram que muitas escolas não estavam preparadas, especialmente em áreas que historicamente não sofriam enchentes. Por outro lado, as escolas do Vale do Taquari, que convivem com rios próximos, desenvolveram estratégias próprias ao longo dos anos. Elas aprenderam observando comerciantes, vizinhos e a própria recorrência das enchentes. Usam espuma expansiva para vedar portas, elevam móveis, interruptores e computadores, fixam armários em alturas seguras e criam estruturas simples para levantar carteiras em dias de previsão de chuva forte. São medidas de baixo custo, mas extremamente eficazes. A percepção de risco é um elemento-chave. Escolas aprendem entre si. E também precisam de suporte e orientação técnica dos órgãos centrais e regionais para fazer ajustes simples que não exigem grandes obras, mas reduzem danos materiais e documentais.
Agência FAPESP – Desse trabalho surgiu o Guia de Proteção e Defesa Civil para Escolas do Rio Grande do Sul. O que é esse material?
Matsuo – O Guia é uma política pública criada pela Secretaria de Educação do Estado do Rio Grande do Sul, em parceria com a Defesa Civil, o Instituto Alana e o Vozes da Educação. Não é uma cartilha única ou rígida para todas as escolas gaúchas, mas sim uma diretriz para que cada escola construa o seu próprio plano de contingência, considerando a realidade socioambiental, as ameaças específicas do seu território e as capacidades de enfrentamento da escola naquele momento. Trata-se de um passo a passo em 19 etapas, com fichas e orientações, que envolve alunos, professores, gestores, famílias e comunidade. O documento deve ser revisitado periodicamente, até porque as ameaças mudam, as equipes mudam, mas as capacidades da escola e dos profissionais podem melhorar ao longo do tempo. É importante saber que não existe um modelo, mas que é possível aprender com os outros, com as outras escolas, a partir das estratégias de proteção e prevenção desenvolvidas pelas comunidades escolares.
Este texto foi originalmente publicado pela Agência Fapesp, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.
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