Oceanos

Praias, onde há mais vida, concentram até 80% das microfibras de plástico dos oceanos, revela estudo

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A roupa que sai da máquina de lavar perde minúsculos fios de poliéster que escapam pelo ralo. Invisíveis a olho nu, essas microfibras representam uma das principais formas de microplástico nos oceanos, mas uma nova pesquisa indica que a imensa maioria deles sequer alcança o mar. De acordo com um estudo publicado no Journal of Geophysical Research: Oceans, até 80% das fibras liberadas por estações de tratamento de esgoto no mar Salish, um sistema de águas costeiras que se estende entre a Colúmbia Britânica e o estado de Washington, ficam retidas perto da costa.

Em vez de seguirem para o oceano Pacífico, esses fragmentos têxteis se acumulam em rios, estuários e baías rasas, formando depósitos que podem se tornar fontes persistentes de poluição. A pesquisa combinou medições de campo realizadas próximo ao rio Fraser, no Canadá, com modelos computacionais de alta resolução. Liderado pelo doutorando Jose Valentí-Muelas e sua equipe, o trabalho rastreou a trajetória dessas partículas desde o descarte doméstico até o leito marinho.

A forma alongada das fibras de poliéster faz com que, apesar de serem mais densas que a água salgada, elas afundem lentamente. O modelo tridimensional SalishSeaCast, que simula correntes, marés e fluxos fluviais, mostrou que elas podem permanecer suspensas por dias perto da superfície. Enquanto isso, a circulação estuarina — resultado da interação entre a água doce dos rios e a água salgada do mar — cria zonas de retenção naturais. Em canais e bacias com correntes mais lentas, as microfibras têm mais tempo para se depositar no fundo ou serem levadas para a praia.

O estudo revelou que 31% das partículas simuladas acabaram sedimentadas no fundo, enquanto 14% se acumularam ao longo das faixas de areia. Apenas uma fração ínfima, cerca de 0,13%, escapou para o Pacífico. Em locais de correntes rápidas, como a foz do estreito de Juan de Fuca, as microfibras percorreram distâncias maiores; já em áreas mais calmas, como o estreito de Puget, eles permaneceram concentrados perto de suas fontes. A vazão dos rios também influencia esse trajeto: quando o fluxo de água doce aumenta, a corrente superficial se intensifica e empurra mais fibras para a costa.

Para validar os modelos, os pesquisadores coletaram amostras de água em dez pontos do rio Fraser. As contagens de microfibras de poliéster na coluna d’água ficaram na mesma ordem de grandeza das previsões computacionais, confirmando que a maioria das fibras realmente se acumula próximo aos locais de lançamento.

Os resultados têm implicações diretas para a gestão da poluição. Embora os estuários funcionem como filtros naturais, eles também se tornam focos de contaminação, colocando em risco a vida selvagem local, a saúde dos sedimentos e as populações humanas que dependem desses ecossistemas. Além disso, tempestades ou eventos de maré intensa podem ressuspender esses microfibras armazenados nos sedimentos, transformando as regiões costeiras em fontes contínuas de poluição a longo prazo.

O estudo reforça que a solução para o problema dos microplásticos não pode focar apenas no oceano aberto. A dinâmica costeira, o fluxo dos rios e o movimento das marés determinam o destino desses poluentes, indicando que ações locais — como a instalação de filtros nas máquinas de lavar, o aprimoramento do tratamento de esgoto e mudanças na produção têxtil — são essenciais para reduzir as emissões na fonte.

Stella Legnaioli

Jornalista, gestora ambiental, ecofeminista, vegana e livre de glúten. Aceito convites para morar em uma ecovila :)

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