Imagem de Ali Abdul Rahman no Unsplash
A expansão urbana nas zonas costeiras está alterando a fisiologia noturna de tubarões, com potenciais repercussões em toda a cadeia alimentar marinha. Uma pesquisa inédita, publicada na revista Science of The Total Environment, quantificou pela primeira vez concentrações do hormônio melatonina no sangue de tubarões selvagens. Os resultados demonstram que espécies residentes em áreas iluminadas artificialmente apresentam níveis hormonais significativamente mais baixos durante a noite, comparativamente a indivíduos de habitats menos desenvolvidos.
O trabalho, desenvolvido pelo Programa de Pesquisa e Conservação de Tubarões da Universidade de Miami, focou-se em duas espécies com comportamentos distintos ao largo da costa de Miami, uma das regiões metropolitanas costeiras mais iluminadas dos Estados Unidos. Os tubarões-lixa, conhecidos pela sua baixa mobilidade e hábitos residentes, exibiram uma redução acentuada na melatonina quando expostos à luz artificial noturna. Já os tubarões-galha-preta, altamente móveis e que transitam entre áreas claras e escuras, não apresentaram variações hormonais significativas.
A melatonina regula os ritmos biológicos diários, sendo fundamental para a saúde e o equilíbrio fisiológico em diversos animais. Alterações nesta hormona associam-se a distúrbios do sono e do metabolismo em seres humanos e fauna terrestre. A descoberta de que tubarões, grupos com mais de 400 milhões de anos de história evolutiva, apresentam respostas semelhantes sublinha a natureza conservada deste processo biológico ao longo do tempo.
Para a coleta de dados, realizada ao longo de um ano, os investigadores utilizaram linhas de tambor de curta duração para minimizar o stress nos animais. As amostras de sangue foram recolhidas imediatamente após a captura, em operações noturnas que empregaram iluminação vermelha de baixo impacto. Paralelamente, mediram variáveis ambientais como intensidade luminosa, profundidade e temperatura da água, estabelecendo uma ligação direta entre a exposição à luz urbana e as mudanças fisiológicas observadas.
A pesquisa estabelece valores basais de melatonina para ambas as espécies, criando uma referência fundamental para o monitoramento futuro. As implicações ecológicas são amplas, dado o papel central dos tubarões como predadores de topo na manutenção do equilíbrio dos ecossistemas marinhos. Alterações fisiológicas nestes animais podem desencadear efeitos em cascata em toda a teia alimentar oceânica.
Os resultados colocam a poluição luminosa na lista de fatores de stress ambiental para a vida marinha, ao lado de ameaças mais reconhecidas, como a perda de habitat e a contaminação química. A compreensão destes mecanismos pode, ainda, abrir caminho para novas investigações em fisiologia comparada, com potencial para informar o desenvolvimento de terapias relacionadas com distúrbios da melatonina.
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