Plástico

PMMA utilizado em harmonização facial é um plástico e pode ser nocivo para o meio ambiente

Compartilhar

O material usado em procedimentos de harmonização facial, conhecido como polimetilmetacrilato (PMMA), é um tipo de plástico sintético derivado do petróleo — o mesmo grupo de substâncias que, quando descartadas no ambiente, está associado à crescente crise dos microplásticos.

Utilizado na forma de microesferas suspensas em gel, o PMMA é aplicado sob a pele com a proposta de estimular a produção de colágeno e promover efeitos duradouros. Diferente de outros preenchedores absorvíveis, trata-se de um material permanente, que não é degradado pelo organismo.

Essa característica, valorizada na estética, é justamente o que chama atenção fora do consultório.

Um plástico dentro do corpo

O PMMA pertence à classe dos polímeros termoplásticos, amplamente utilizados na indústria para a fabricação de itens como acrílicos, lentes e estruturas transparentes. Sua principal característica é a durabilidade: ele não é biodegradável e pode permanecer no ambiente por longos períodos.

Na medicina estética, essas mesmas propriedades são exploradas para garantir resultados prolongados. Uma vez injetadas, as microesferas permanecem no tecido e induzem uma resposta do organismo, que forma colágeno ao redor delas.

O uso é regulamentado no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), com indicações específicas e exigência de aplicação por profissionais qualificados.

Do ambiente ao organismo, e vice-versa

Embora o uso do PMMA em harmonização facial não tenha sido diretamente associado à poluição ambiental, o material em si já é estudado dentro do campo dos microplásticos — partículas de plástico com menos de 5 milímetros que se acumulam no solo, na água e em organismos vivos.

Pesquisas recentes indicam que microplásticos compostos por polímeros podem interferir em processos biológicos fundamentais. Esses efeitos não estão ligados ao uso estético do material, mas ajudam a contextualizar sua natureza: trata-se de um plástico persistente, com potencial de interação biológica quando presente no ambiente.

A era do plástico invisível

Nas últimas décadas, microplásticos foram detectados em diferentes partes do corpo humano, incluindo sangue, pulmões e até na placenta. A principal via de exposição é ambiental, por meio da ingestão de água, alimentos e da inalação de partículas suspensas no ar.

Nesse cenário, o uso de um polímero plástico como implante permanente ganha uma dimensão simbólica. Ele representa uma inversão curiosa: enquanto a ciência investiga os riscos da presença involuntária de plásticos no organismo, a medicina utiliza versões controladas desses materiais como solução tecnológica.

Riscos e controvérsias

Do ponto de vista clínico, o PMMA também é alvo de debates. Por ser permanente, complicações podem surgir meses ou anos após a aplicação, incluindo inflamações, formação de nódulos e reações do sistema imunológico. Além disso, a remoção do material é complexa e, em muitos casos, inviável.

Essas características exigem critérios rigorosos de indicação e aplicação — e reforçam a necessidade de informação por parte dos pacientes.

Um debate que vai além da estética

A discussão sobre o PMMA revela uma questão mais ampla: a relação contemporânea com os plásticos. Onipresentes na vida moderna, esses materiais atravessam fronteiras entre o ambiente, a indústria e o corpo humano.

Se, por um lado, sua durabilidade é vista como problema ambiental, por outro, ela é explorada como vantagem tecnológica em diversas áreas, incluindo a saúde.

Nesse contexto, o PMMA não é apenas um insumo da medicina estética. Ele é também um exemplo de como a sociedade tem incorporado materiais sintéticos de longa permanência — muitas vezes sem refletir plenamente sobre suas implicações a longo prazo.

Stella Legnaioli

Jornalista, gestora ambiental, ecofeminista, vegana e livre de glúten. Aceito convites para morar em uma ecovila :)

Utilizamos cookies para oferecer uma melhor experiência de navegação. Ao navegar pelo site você concorda com o uso dos mesmos.

Saiba mais