Imagem de Diana Polekhina no Unsplash
Milhões de residências despejam diariamente pelos ralos substâncias presentes em sabonetes, sprays e lenços umedecidos ditos “germicidas” — um hábito que, longe de trazer mais segurança sanitária, contribui silenciosamente para a emergência de superbactérias resistentes a antibióticos, alerta um grupo internacional de cientistas.
A resistência antimicrobiana (RAM) já provoca mais de um milhão de mortes anuais no planeta, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Até 2050, esse número pode equiparar-se ao de óbitos por câncer. Enquanto os esforços globais de prevenção concentram-se em hospitais e na agropecuária, uma nova análise publicada na revista Environmental Science & Technology aponta para um vilão doméstico: os biocidas como compostos de amônio quaternário (QACs) e cloroxilenol, presentes em produtos de limpeza cotidianos.
Pesquisadores de universidades dos Estados Unidos, Canadá, Brasil e Suíça reuniram evidências de laboratório e de campo mostrando que essas substâncias, ao entrarem no esgoto e no ambiente, criam condições ideais para bactérias se adaptarem. Elas não apenas sobrevivem aos biocidas, mas também adquirem resistência cruzada a antibióticos essenciais. Mudanças genéticas duradouras ocorrem nos microrganismos, incluindo a troca de genes de resistência — o que permite que linhagens resistentes se tornem dominantes.
O uso desses produtos disparou durante a pandemia de covid-19 e continua alto. No entanto, autoridades sanitárias como a FDA (agência reguladora dos EUA), os Centros de Controle e Prevenção de Doenças americanos e a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendam à população comum a lavagem das mãos com água e sabão comum, não com sabão antibacteriano. Os biocidas, além de alimentarem a RAM, trazem riscos de toxicidade e não oferecem benefício comprovado à saúde na maioria das aplicações domésticas.
“As estratégias globais contra a RAM ignoraram as casas enquanto focavam hospitais e fazendas”, afirma Miriam Diamond, professora da Universidade de Toronto e autora sênior do estudo. Para ela, os biocidas que escorrem pelos ralos deveriam ser um alvo claro de prevenção. A solução, segundo os autores, passa por incluir explicitamente esses produtos no próximo Plano de Ação Global da OMS contra a RAM, com metas de redução e monitoramento ambiental.
Governos nacionais também são instados a restringir ingredientes antimicrobianos em itens domésticos sem comprovação de eficácia. Campanhas de conscientização pública são necessárias para desfazer o mito de que é preciso produtos antibacterianos para a limpeza do dia a dia. “A eliminação de aditivos antibacterianos desnecessários reduz a poluição química, protege a saúde pública e ajuda a conter a disseminação de superbactérias”, resume Rebecca Fuoco, autora principal e diretora de comunicações científicas do Green Science Policy Institute.
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