Imagem de Naja Bertolt Jensen no Unsplash
O que antes era visto apenas como um detrito passivo agora se revela um ator ativo na dinâmica das nuvens. Em laboratório, cientistas descobriram que os microplásticos transportados pelo ar, ao ganharem um revestimento vivo de bactérias, tornam-se muito mais eficientes na formação de gelo. O fenômeno, que eleva em até 6,5ºC a temperatura na qual ocorre o congelamento, aponta para uma interferência direta da poluição humana nos mecanismos que desencadeiam a chuva, a neve e até mesmo na regulação térmica do planeta.
A pesquisa, conduzida por uma equipe da Virginia Tech e publicada na Environmental Science & Technology, mergulhou no comportamento dessas partículas ínfimas ao serem alojadas em nuvens. Em vez de focar apenas no plástico em si, os pesquisadores simularam condições reais da atmosfera, permitindo que micróbios naturais se fixassem e formassem uma fina película biológica, conhecida como biofilme, na superfície dos fragmentos de poliestireno e polietileno.
O resultado contrariou a intuição inicial. Quando cobertos por essa comunidade microbiana, os microplásticos não apenas carregaram os organismos, mas potencializaram sua capacidade de nucleação do gelo, superando a eficácia das mesmas bactérias quando estavam soltas na água. A descoberta sugere que a chamada “plastisfera” — o ecossistema vivo que habita esses resíduos — transforma a composição química e física da partícula, criando sítios ativos que favorecem o congelamento em temperaturas mais amenas.
As implicações para a meteorologia e a climatologia são profundas. A formação de gelo nas nuvens é um gatilho essencial para a precipitação e também dita o quanto de radiação solar é refletido de volta ao espaço. Com a multiplicação dos microplásticos na atmosfera, esse processo pode ser acelerado, levando a alterações regionais nos padrões de chuva e neve. Para a doutoranda Carrie Carpenter, uma das autoras do estudo, a percepção sobre o problema muda de figura: trata-se de uma via inesperada pela qual o lixo descartado pelo homem passa a interagir com os sistemas naturais da Terra.
Enquanto fatores como radiação solar e envelhecimento da partícula, isoladamente, não alteravam significativamente o potencial de formação de gelo, a presença da camada biológica mostrou-se determinante. Fragmentos menores, apesar de não terem uma eficácia geral distinta, apresentaram maior quantidade de locais propícios para o início do congelamento. O professor Hosein Foroutan, que liderou a pesquisa, destaca que a inclusão dessa variável nos modelos climáticos será essencial para antecipar cenários futuros, pois mesmo pequenas alterações na dinâmica das nuvens podem gerar efeitos cascata sobre o clima e a disponibilidade de água.
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