Comportamento

Maioria dos homens heterossexuais com comportamento considerado masculino rejeita manosfera, aponta pesquisa

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Um novo estudo sobre masculinidade traz a visão generalizada de que os homens, como grupo, não se opõe ao feminismo e rejeita ideologia propagada pela manosfera. A pesquisa, publicada na revista Psychology of Men & Masculinities, analisou uma amostra representativa de 15.808 homens heterossexuais na Nova Zelândia. Os resultados apontam que o sexo e o comportamento considerado masculino não se traduzem, automaticamente, na adoção de ideologias misóginas como as propagadas pela manosfera.

O conceito de masculinidade tóxica, cunhado na década de 1990, ganhou espaço no debate público, especialmente após o movimento #MeToo. No entanto, o termo é frequentemente usado de maneira ampla e sem uma mensuração empírica rigorosa. Essa falta de precisão pode gerar confusão, obscurecendo a distinção entre expressões saudáveis e nocivas de comportamentos considerados típicos de homens. A pesquisa buscou superar essa lacuna, indo além da simples desaprovação para medir concretamente atitudes e crenças.

A análise estatística identificou cinco perfis distintos entre os participantes. O maior grupo, englobando 35,4% dos homens, apresentou padrões predominantemente não tóxicos, com baixos níveis em todos os indicadores prejudiciais avaliados. A maioria dos homens (53,8%) se distribuiu em dois perfis considerados moderados. Esses grupos exibiram pontuações baixas a moderadas na maioria das características, diferenciando-se principalmente nos níveis de preconceito sexual.

Em contraste, um perfil classificado como tóxico benevolente reuniu 7,6% dos entrevistados. Esses homens apresentaram altas pontuações em sexismo benevolente – uma visão aparentemente positiva, mas ainda estereotipada, sobre as mulheres – combinado com elevado preconceito sexual. O grupo mais preocupante, porém menor numericamente, representou apenas 3,2% do total. Este perfil hostil e tóxico exibiu altos níveis de sexismo hostil, narcisismo e até mesmo resistência a esforços de prevenção da violência doméstica.

Um dos achados mais significativos do trabalho contraria uma suposição comum: a forte identificação com a própria masculinidade não se mostrou um preditor confiável para atitudes problemáticas. Homens para quem ser homem era central em sua identidade não necessariamente endossavam misoginia, dominância ou oposição ao feminismo. Esse dado questiona a retórica de nichos on-line, como a manosfera, que frequentemente propaga uma versão agressiva e restritiva do que significa ser homem como a única verdadeira.

Os pesquisadores destacam a importância de evitar generalizações. Rotular a masculinidade como inerentemente tóxica pode gerar mais danos do que benefícios, ignorando problemas reais de saúde e bem-estar que afetam os homens. A pesquisa sugere que intervenções e discussões públicas – sem atribuir essa responsabilidade para feministas – devem ser mais matizadas, reconhecendo a diversidade de experiências e atitudes masculinas.

O estudo abre caminho para investigações futuras com amostras mais diversas, cultural e geograficamente. Compreender a prevalência e as nuances dos diferentes perfis de masculinidade é um passo fundamental para promover modelos saudáveis de identidade de gênero, que beneficiem toda a sociedade.

Stella Legnaioli

Jornalista, gestora ambiental, ecofeminista, vegana e livre de glúten. Aceito convites para morar em uma ecovila :)

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