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Lavagem de plástico em usinas de reciclagem aumenta níveis de ftalatos nas águas residuais, aponta estudo

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A água reutilizada na lavagem de plásticos dentro de usinas de reciclagem pode acumular substâncias químicas ligadas a câncer e desregulação hormonal, aponta uma pesquisa conduzida pela Universidade Estadual de Iowa, nos Estados Unidos. Ao simular procedimentos industriais comuns, os cientistas identificaram que métodos como a aplicação de ultrassom ou o uso de detergente combinado com soda cáustica elevaram a concentração de ftalatos na água, incluindo o DEHP e o DCHP, que chegaram a atingir níveis 25 vezes superiores ao limite permitido para água potável após 15 ciclos de reuso. A investigação coloca em evidência uma lacuna pouco regulamentada do processo de reciclagem e alerta para a necessidade de soluções viáveis que não comprometam a viabilidade econômica do setor.

A pesquisa, publicada na Advances in Materials Science and Engineering, concentrou-se no polipropileno, o plástico número 5, muito presente em embalagens de laticínios e com uma taxa de reciclagem estimada em apenas 3%. Os pesquisadores moeram o material até obter flocos semelhantes a grãos de sal grosso e testaram diferentes técnicas de limpeza. Em um dos experimentos, ao longo de 15 ciclos de reuso da mesma água combinada com soda cáustica e um detergente industrial, a concentração do agente de limpeza diminuiu, indicando que parte dele foi absorvida pelos próprios flocos de plástico, um efeito também preocupante devido ao potencial desregulador hormonal dessas substâncias.

Os métodos que se basearam apenas em agitação mecânica, com ou sem soda cáustica, não apresentaram concentrações detectáveis de ftalatos ou bisfenóis na água residual. Já os processos que empregaram ultrassom ou a combinação de soda com detergente resultaram na migração dos aditivos químicos para a água. De acordo com os autores, isso demonstra que a forma como a limpeza é feita influencia diretamente quais contaminantes serão gerados e descartados, um ponto cego na cadeia produtiva que exige atenção.

Para o pesquisador Greg Curtzwiler, um dos autores do estudo, o caminho não é abandonar a reciclagem, mas sim tornar o processo mais inteligente e controlado. Entre as alternativas em estudo por sua equipe estão a fracionação por espuma, que utiliza bolhas de ar para remover impurezas, a eletro-oxidação, que decompõe os contaminantes por eletricidade, e tratamentos de base biológica com nanomateriais. Outra frente apontada é a redução drástica do uso de água, seja por meio de uma triagem mais eficiente dos materiais ou de métodos de limpeza a seco.

O alerta chega em um momento em que a indústria da reciclagem busca ampliar sua escala com margens apertadas. Enquanto a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos traçou a meta de elevar a taxa nacional de reciclagem de plásticos para 50% até 2030, dados recentes mostram que apenas 21% dos materiais recicláveis domésticos são efetivamente reaproveitados no país. Os pesquisadores ressaltam que as soluções precisam ser economicamente viáveis para não inviabilizar um setor que é essencial na redução de resíduos.

Stella Legnaioli

Jornalista, gestora ambiental, ecofeminista, vegana e livre de glúten. Aceito convites para morar em uma ecovila :)

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