Poluição

Grama sintética pode ser um coquetel tóxico quimicamente ativo

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A borracha escura e esponjosa que amortece quedas em campos de futebol e playgrounds sintéticos é, na verdade, pneu triturado em processo de decomposição ativa. Um estudo recente da Universidade Northeastern expôs que esse material, amplamente utilizado como base para grama artificial, libera centenas de substâncias químicas desconhecidas e potencialmente tóxicas à medida que se degrada, levantando sérias questões sobre os riscos à saúde humana e ao meio ambiente.

A pesquisa, publicada na revista Environmental Science & Technology, simulou em laboratório as condições de desgaste natural, como a forte exposição solar. Os cientistas descobriram que a borracha granulada é altamente reativa, gerando um mínimo de 572 subprodutos químicos durante sua transformação. Entre as substâncias identificadas, figuram compostos reconhecidamente perigosos, como o disruptor endócrino suspeito de causar câncer de mama, conhecido como 4-HDPA, e o 1,3-DMBA, que imita os efeitos da anfetamina.

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A investigação partiu de estudos anteriores sobre o impacto ambiental da degradação de pneus. Já se sabia, por exemplo, que um composto chamado 6PPD, usado na fabricação de pneus, reage com o ozônio e forma a 6PPD-quinona. Essa substância transformada mostrou-se extremamente letal para espécies como o salmão coho, com a água da chuva carreando a toxina das estradas para os cursos d’água.

O cenário em campos esportivos reais, no entanto, é complexo e variável. A concentração de químicos pode flutuar, já que os pneus reciclados vêm de diferentes fabricantes e têm idades diversas. Embora relatórios anteriores, como um da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos em 2019, sugerissem que a exposição humana nesses locais era limitada, o novo estudo aponta para uma dinâmica química contínua e pouco compreendida.

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Segundo os pesquisadores, o processo de decomposição e transformação química no material pode levar de dois a três anos para se estabilizar. Muitos campos sintéticos, porém, são substituídos em um intervalo de tempo similar, o que significa que a borracha está constantemente ativa, liberando novas combinações de substâncias no solo e no ar. O fenômeno não se resume à quebra de compostos em partes menores, mas também à formação de moléculas maiores a partir de pedaços menores, ampliando o leque de produtos químicos gerados.

Para a grande maioria dos centenas de subprodutos identificados, os efeitos sobre a saúde humana e os ecossistemas permanecem simplesmente desconhecidos. A pesquisa serve como um alerta sobre os impactos ocultos de soluções aparentemente sustentáveis, como a reciclagem de pneus, quando estas são aplicadas em ambientes de uso intensivo por pessoas. A comunidade científica enfatiza a necessidade de mais estudos para mapear os riscos reais e repensar os materiais usados ​​em espaços de lazer.

Mais informações: Madison H. McMinn et al, Da estrada ao campo: decodificando a transformação química na borracha granulada de pneus e grama artificial envelhecida, 
Environmental Science & Technology (2025). 
DOI: 10.1021/acs.est.5c08260

Stella Legnaioli

Jornalista, gestora ambiental, ecofeminista, vegana e livre de glúten. Aceito convites para morar em uma ecovila :)

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