Imagem de Deon Black no Unsplash
Pouco depois da cópula, o corpo da fêmea do babuíno-oliva já começou a decidir, silenciosamente, se aquele macho será ou não o pai de seus filhotes. Pesquisadores descobriram que o ambiente vaginal muda conforme a compatibilidade genética do parceiro: ácido demais, e o espermatozoide encontra um caminho hostil; estável, e a fertilização ganha mais chances. O fenômeno, batizado de escolha críptica feminina, já era conhecido em roedores, mas agora ganha evidência robusta em primatas, conforme estudo publicado na revista PLOS Biology.
O trabalho acompanhou 13 babuínos (nove fêmeas e quatro machos) em um centro de primatas na França. Os cientistas mapearam o DNA de cada animal com foco em genes ligados ao sistema imunológico e à compatibilidade genética. Para evitar interferências, as fêmeas foram treinadas com reforço positivo a se oferecer para coleta rápida de amostras vaginais e medições de pH — antes do acasalamento e quatro horas depois.
O resultado surpreendeu: após a relação com machos geneticamente parecidos, o pH vaginal caiu significativamente, tornando o ambiente mais ácido e hostil aos espermatozoides. Já na união com parceiros geneticamente diversos, o pH manteve-se estável, favorecendo a fecundação. Além disso, genes ligados a respostas inflamatórias e à sinalização imunológica foram ativados justamente quando o parceiro era pouco recomendado do ponto de vista genético.
Curiosamente, nos dias de maior fertilidade, partes do sistema imunológico da fêmea se tornam menos ativas — uma espécie de trégua que permite a sobrevivência de espermatozoides estranhos. Mas, diante de um macho com material genético muito semelhante, o corpo reage como se estivesse diante de um invasor indesejado. Os autores do estudo afirmam que essas diferenças na expressão gênica e no pH vaginal após a cópula indicam um mecanismo fino de discriminação pós-acasalamento.
A pesquisa, ainda que com número pequeno de animais, abre caminho para entender como o trato reprodutivo feminino em primatas pode influenciar a probabilidade de concepção. Estudos maiores deverão confirmar se essa seleção interna se traduz em mais nascimentos bem-sucedidos e filhotes mais saudáveis. A conclusão, por ora, é clara: a fêmea não apenas carrega os filhotes — ela também exige, silenciosamente, o melhor material genético para gerá-los.
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