Lorenzo Castagnone no Unsplash
Em um paradoxo marcante da era do aquecimento global, o derretimento acelerado das geleiras não as afasta, mas as transforma em destinos cada vez mais procurados. Milhões de viajantes são atraídos anualmente por essas paisagens geladas, movidos por uma mistura de fascínio estético e por um desejo urgente de testemunhar, antes que seja tarde, marcos naturais que se dissipam. Esta busca, carregada de significado e contradições, foi analisada em um estudo publicado na revista Nature Climate Change, que investiga as múltiplas camadas do chamado “turismo de última chance”.
Os números impressionam: mais de 14 milhões de visitantes se dirigem anualmente às geleiras mais acessíveis do planeta. Essas massas de gelo, no entanto, já não são apenas cenários majestosos. Elas se converteram em símbolos poderosos da mudança climática, palcos de luto coletivo e pontos de mobilização política. A pesquisa, que reuniu antropólogos como Cymene Howe, da Universidade Rice, destaca como a experiência diante de uma geleira que recua carrega um peso emocional profundo, frequentemente descrito como uma forma de dor ecológica.
A transformação é cultural e ambiental. Para populações locais, a perda progressiva dessas estruturas milenares significa o fim de modos de vida e a erosão de um patrimônio natural íntimo. Em resposta, surgem novos rituais de engajamento, desde centros educativos até cerimônias públicas que lamentam o desaparecimento do gelo, como o funeral realizado para uma geleira na Islândia em 2019. Estes atos simbolizam a crescente consciência de que as geleiras são ecossistemas vitais, fornecedores de água e habitat para diversas espécies.
Contudo, o aumento do fluxo turístico gera tensões complexas. Estratégias para manter o acesso dos visitantes, como revestir o gelo com tecidos especiais ou ampliar a infraestrutura de transporte, podem agravar o problema que procuram mitigar. Essas medidas de curto prazo tendem a elevar as emissões de carbono, promover a degradação ambiental e, em muitos casos, concentrar os lucros em operadores externos, enquanto as comunidades próximas enfrentam os riscos de escassez hídrica e economias turísticas instáveis.
O estudo alerta que soluções técnicas imediatistas podem postergar ações climáticas mais amplas e necessárias. Facilitar o acesso a esses locais através de meios intensivos em combustíveis fósseis integra-se, ironicamente, à mesma economia que acelera o degelo. A pesquisa defende, portanto, a necessidade de políticas de gestão turística que priorizem as comunidades locais, equacionem questões de justiça ambiental e reinventem modelos que ainda dependem da exploração de paisagens ameaçadas.
O apelo dos pesquisadores é por um acompanhamento mais atento e por decisões mais reflexivas. A lista global de casualidades glaciais cresce, e com ela a urgência de histórias que lembrem a humanidade de sua capacidade de preservação. O desafio central, conforme aponta a análise, reside em garantir que a comoção, a conscientização e a própria atividade turística não se convertam em vetores que apressem o desaparecimento daquilo que buscam celebrar. O futuro das geleiras e das comunidades que com elas coexistem dependerá dessa difícil conciliação.
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