Água e Saneamento

Aedes aegypti especializou-se em se alimentar de sangue humano após chegar às Américas

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Por Ricardo Zorzetto – Revista Pesquisa Fapesp | O mosquito Aedes aegypti é um transmissor de vírus muito bem-sucedido. Com seu corpo escuro tingido por pintas e listras brancas, ele se adaptou bem às cidades e se espalha pelas zonas tropical e subtropical de praticamente todo o planeta. Das Américas à Ásia, da Europa à da África, sem deixar de lado a Oceania. A distribuição por um território tão vasto contribuiu para tornar esse inseto uma das maiores ameaças à saúde pública mundial. Hoje, 4 bilhões de pessoas vivem em áreas onde existe A. aegypti e correm o risco de serem infectadas por um dos muitos vírus que ele transmite com competência, como o da dengue, da febre amarela, da zika e da chikungunya.

Há tempos, especialistas em insetos tentam descobrir quando e como surgiram as adaptações que permitiram ao mosquito se tornar tão cosmopolita. As respostas mais recentes e precisas sugiram em um estudo publicado em setembro na revista Science. Elas indicam que o inseto, de certo modo, contou com a colaboração humana.

No trabalho, do qual participaram dois pesquisadores brasileiros, a equipe liderada pelo entomologista norte-americano Jacob E. Crawford, do Google LLC, sequenciou o genoma completo de 1.206 mosquitos capturados em 73 locais do mundo e retraçou a história evolutiva dessa espécie.

A primeira conclusão é que o mosquito Aedes aegypti não é originário da África continental, como muitos especialistas imaginavam. Ele surgiu em ilhas da região sudoeste do oceano Índico por volta de 7 milhões de anos. O mosquito só alcançou o continente africano bem mais tarde, cerca de 85 mil anos atrás. Era um inseto de coloração mais escura, que colocava seus ovos em ocos de árvores e se alimentava do sangue de uma variedade de animais – só as fêmeas consomem sangue, o que favorece a geração dos ovos; os machos se alimentam de néctar e frutos. Os pesquisadores classificaram a variedade que entrou na África como sendo uma subespécie: Aedes aegypti formosus.

Por dezenas de milhares de anos, essa variedade espalhou-se pelo continente africano até que mudanças ambientais severas favoreceram o surgimento de outra, mais adaptada a conviver com os agrupamentos humanos no extremo oeste da África. Com o clima mais quente e seco, por volta de 5 mil anos atrás, na porção ocidental do Sahel, próximo ao atual Senegal, sobreviveram as populações do mosquito adaptadas a colocar ovos em cisternas e recipientes de água mantidos perto das habitações e a se alimentar de sangue humano. Dali, elas se espalharam pela costa oeste da África e, a partir do século XVI, chegaram às Américas por meio do tráfico de africanos escravizados. Os pesquisadores a chamaram essa variedade de proto Aedes aegypti aegypti.

O mosquito trazido ao continente americano já acumulava diferenças comportamentais e genéticas em relação ao A. a. formosus, ainda hoje encontrado em muitas partes da África. “A populações de proto Aedes aegypti aegypti, a variedade que chegou às Américas, eram geneticamente menos diversas do que as de A. a. formosus”, conta o entomologista e bioinformata Luciano Cosme, da Universidade de Califórnia em Riverside, nos Estados Unidos, um dos autores brasileiros do estudo.

Em apenas 200 ou 300 anos, do proto Aedes aegypti aegypti emergiu em solo americano uma versão bem mais invasiva, adaptada a se alimentar de sangue humano, a viver em áreas urbanas e a transmitir vírus. É o Aedes aegypti aegypti, que rapidamente se espalhou pelo continente. “Nos séculos XVIII e XIX, o comércio internacional de mercadorias exportou essa variedade para a Europa e a Ásia”, explica o entomologista Ademir Martins, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), coautor da pesquisa.

No século XX, após a Segunda Guerra Mundial, Aedes aegypti aegypti foi extinto em boa parte das Américas, inclusive no Brasil, pelo uso disseminado de inseticidas potentes. Na década de 1960, com o relaxamento do combate, foi reintroduzido na América do Sul a partir dos Estados Unidos e do Caribe. Mais recentemente, já incorporando mutações de resistência a inseticidas, essa variedade retornou para a África, onde é associada a surtos recentes de dengue. “Esse é hoje um supermosquito”, resume Cosme.

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Este texto foi originalmente publicado pela Revista Pesquisa Fapesp, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.

Bruna Chicano

Cientista ambiental, vegana, mãe da Amora e da Nina. Adora caminhar sem pressa e subir montanhas.

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