Imagem de Sören Funk no Unsplash
Em praias, rios e oceanos, uma contaminação discreta mas persistente toma forma de minúsculas esferas plásticas. Chamadas nurdles, essas partículas são a matéria-prima de quase todos os produtos plásticos e transformam-se em uma praga ambiental quando escapam no processo produtivo ou no transporte. Estima-se que quase 450 mil toneladas desses grãos invadam os oceanos anualmente, representando uma ameaça direta à vida marinha e à saúde humana.
Essas partículas, geralmente com menos de 5 milímetros, são um tipo específico de microplástico. Diferentemente de fragmentos oriundos da degradação de resíduos, os nurdles têm formato e tamanho uniformes, o que facilita sua identificação. Apesar disso, sua limpeza é complexa. Além disso, atuam como esponjas para toxinas ao longo da cadeia alimentar.
A presença massiva desses pellets já mobiliza iniciativas de monitoramento e coleta. Em ações de voluntariado realizadas na primavera passada, quase 50 mil partículas foram recolhidas em mais de 200 locais espalhados por 14 países e 29 estados norte-americanos. O Texas, com suas extensas costas e numerosas indústrias de plástico, liderou o levantamento com mais de 23 mil unidades encontradas.
A pressão por regulação ganha corpo em vários estados. Enquanto a Califórnia já possui uma lei sobre o tema desde 2007, Illinois, Nova Jersey e Virginia discutiram projetos em 2025. No Texas, um grupo diverso que inclui ambientalistas, pescadores, líderes empresariais e autoridades locais defende normas mais rígidas. O argumento econômico é central: a poluição por nurdles põe em risco setores como pesca, aquicultura e turismo, que geram bilhões de dólares e centenas de milhares de empregos no estado.
A indústria do plástico, por sua vez, afirma enfrentar o problema por meio do programa voluntário Operation Clean Sweep, criado em 1991. Segundo a associação setorial, mais de dois terços da produção nacional ocorre em instalações participantes. Críticos, contudo, apontam a falta de obrigatoriedade, transparência e mecanismos de fiscalização no esquema.
A ativista Diane Wilson, que atua no litoral do Texas, personifica a batalha contra os derramamentos de pellets. Em 2019, ela foi cocontestante em uma ação judicial que resultou em um acordo recorde de 50 milhões de dólares contra a Formosa Plastics, por despejo ilegal de bilhões de nurdles na baía de Lavaca. Agora, prepara uma nova ação contra a Dow Chemical, alegando descargas irregulares perto de sua cidade natal, Seadrift.
Cientistas alertam que os microplásticos já contaminam água potável, rios e grandes lagos. Estudos indicam que humanos ingerem semanalmente quantidades equivalentes a um cartão de crédito dessas partículas, com potenciais ligações a problemas cardiovasculares, reprodutivos e oncológicos.
Na região dos Grandes Lagos, que sustenta economias de oito estados, propostas legislativas buscam conter o avanço dos pellets. Defensores argumentam que a prevenção é fundamental para evitar danos ambientais e econômicos duradouros. No Oregon, a situação chega a extremos: as praias estão tão tomadas que os grãos se confundem com a areia.
Apesar dos apelos, projetos de lei no Texas foram barrados em comitês legislativos após objeções da indústria, que alega excesso de burocracia e ambiguidade nas regras propostas. A esperança de ativistas e autoridades locais reside na revisão dos padrões de qualidade da água, atualmente em análise pela agência ambiental texana. Uma decisão anterior, em 2022, teria recuado de uma possível proibição devido à pressão setorial.
Em Galveston, cidade costeira que recebe até 8 milhões de visitantes por ano, o conselho municipal aprovou por unanimidade um apelo por ação governamental. Voluntários monitoram as praias localmente e já coletaram mais de 17 mil nurdles nos últimos cinco anos.
Até mesmo vozes influentes do setor de energia, como o empresário J.P. Bryan, manifestaram apoio público ao controle da poluição por pellets. Em artigo, Bryan evocou memórias de infância nas praias do Texas e defendeu que a responsabilidade deve recair sobre quem produz o problema, cabendo ao governo intervir se necessário.
A questão dos nurdles ilustra um dilema contemporâneo: como equilibrar a produção industrial com a proteção de ecossistemas e economias locais. Enquanto o debate evolui, as pequenas esferas seguem se acumulando em margens e leitos, desafiando comunidades e policymakers a agir antes que o preço ambiental e social se torne irreversível.
Utilizamos cookies para oferecer uma melhor experiência de navegação. Ao navegar pelo site você concorda com o uso dos mesmos.
Saiba mais