Matemáticos desenvolvem aplicativo que mede o nível de "felicidade" das pessoas nas redes sociais

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Objetivo não é a aferição em si, mas estudar o comportamento humano nas redes

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Considerando a repercurssão e o movimento das redes sociais, foi lançado um novo aplicativo que se propõe a detectar o nível de felicidade das pessoas a partir daquilo que elas postam na internet.

Todas essas redes, além de possibilitarem o contato e a comunicação entre pessoas do mundo inteiro, sustentam algo que é crucial para a atual geração: a imagem. Para sustentar essa imagem, é importante mostrar para os outros um grande número de amigos, as fotos daquela viagem aparentemente incrível, o suposto relacionamento afetivo harmonioso e o mais importante: o quanto são felizes. Mas será que mostrar ser feliz é realmente ser feliz?

O software da felicidade

O nome dele é “Hedonometer”, ou, traduzindo para o português, “Hedonômetro”. O nome vem do grego hedonê, que significa “prazer”, e a sua função é medir o nível de felicidade ao redor do mundo.

Desenvolvido por uma equipe de cientistas da Universidade de Vermont em parceria com a The MITRE Corporation, o Hedonômetro está disponível na internet. Os coordenadores do projeto, os matemáticos Peter Dodds e Chris Danforth, criaram um sistema que rastreia o conteúdo dos tweets na rede.

Se o conteúdo veicular mensagens felizes, positivas e animadoras, isso faz com que o Hedonômetro constate um elevado nível de felicidade. Por enquanto o aplicativo só rastreia os dados fornecidos pelo Twitter, mas a equipe espera agregar ao sistema o rastreamento em 12 idiomas, e de outras páginas, como blogs e o Google Trends. Além disso, até então o “Hedonômetro” só detecta palavras isoladas. Combinações de mais de uma palavra só serão detectadas na segunda etapa do desenvolvimento do projeto.

De acordo com o que foi constatado pelo banco de dados até fevereiro de 2014, a cidade norte-americana mais feliz era Napa, na Califórnia, e a mais triste era Beaumont, no Texas.

Segundo os pesquisadores, a intenção do projeto não é definir satisfação pessoal ou felicidade, mas sim estudar o comportamento das pessoas e como elas se manifestam na internet, para então observar graus de felicidade e infelicidade.

Ser feliz ou dever ser feliz?

Para refletir criticamente sobre a possibilidade de medir a felicidade por meio de um aplicativo que rotula o comportamento das pessoas via o que elas postam, é preciso compreender as tendências culturais que nos levam a supervalorizar um estado de felicidade. E o mais importante, um estado de felicidade que deve ser reconhecido pelos outros.

A sociedade em que vivemos dita um modelo de felicidade que nos é imposto. De acordo com esse modelo, uma pessoa feliz deve ter uma determinada aparência, usar determinadas roupas, frequentar determinados lugares e agir de certa forma. De acordo com a psicanalista Maria Rita Kehla supervalorização do “parecer feliz” e do modelo de felicidade atual pode ser observado na história.

Isso porque, segundo Kehl, a obrigação da felicidade é um subproduto dos movimentos progressistas dos anos 60. Primeiro, perseguia-se o direito à felicidade. Uma vez conquistado esse direito, a sociedade o transformou em um dever, a obrigação de ser feliz em tempo integral. Ou melhor dizendo, de ser feliz em modo online.

Essa imposição da felicidade não só iniciou uma corrida de postagens no Twiiter e no Facebook, como também o aumento das filas nos consultórios de psicólogos e psiquiatras. Um estado de momentânea tristeza, pelo qual qualquer um está sujeito a passar, pode ser entendido como um fracasso terrível e insuperável, uma vez que a sociedade não admite infelicidade. Dessa forma, a pessoa que está triste se transforma em um paciente, não porque realmente apresenta algum tipo de distúrbio - como pode acontecer -, mas porque ela não se enquadra no modelo de felicidade-24-horas-por-dia.

Remediando o que já está remediado

O resultado é visível no uso indiscriminado de medicamentos, que podem causar dependência. Segundo relatório desenvolvido pela IMS Health, houve um crescimento de 49% no uso de antidepressivos entre os anos de 2007 e 2011. Nesse período, foi verificado também que a comercialização de hipnóticos e sedativos teve alta de 3,6 milhões de doses vendidas por mês. A consequência dessa extrema (auto) medicação da sociedade é o elevado índice de intoxicação por remédios: já são 308 mil casos, sendo que 7 casos são registrados por hora, segundo monitoramento feito pela Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz).

A psicóloga Rita de Cássia de Araújo Almeida afirma que as pessoas precisam se dar o direito à infelicidade. Isso significa que não são os remédios que irão remediar os momentos de tristeza que qualquer ser humano pode vivenciar. O melhor remédio é aceitá-los como um sentimento, não como uma patologia.

A questão que todos esses dados realmente levantam não é se há pessoas efetivamente doentes que precisam desses medicamentos. Mas sim que há pessoas que usam tais medicamentos sem realmente estarem doentes e por não se permitirem momentos de tristeza, já que para o atual paradigma cultural, tais momentos são um fracasso.

Portanto, é importante que você e a sociedade considerem o seguinte: sabe aquela pessoa que está cabisbaixa, quieta e apática? Ela não necessariamente está doente e precisa de um remédio tarja preta. Ela pode só estar triste. E sabe aquela pessoa que recebeu centenas de curtidas no Facebook? Ela não necessariamente está feliz. Ela também pode estar triste. 

Curta abaixo a apresentação (em inglês) do estudo feita por Chris Danforth, um dos coordenadores do projeto.



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Comentários  

 
+2 #1 2014-02-18 20:35
Essa reportagem foi um tapa na minha e na cara de muita gente.
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