Você acreditaria que a couve é cancerígena?

eCycle

A linguagem agressiva e referências mal citadas podem passar ideias erradas sobre itens de consumo

Imagine a quantidade de itens que consumimos porque são associados a ideias positivas ou contêm determinado status social - tudo isso meticulosamente planejado pelas fabricantes. Esse tipo de manipulação até causou restrições das propagandas de cigarro e bebidas e, em muitos países, proibições de certas propagandas de brinquedos infantis.

E essa linguagem é ainda mais potente quando referendada pela ciência. A blogueira Melissa McEwan publicou um artigo em seu blog com o seguinte título: "Como o seu hábito de comer couve está, pouco a pouco, destruindo a sua saúde e o mundo". O intuito era chocar, pois a couve é tida como um dos alimentos mais saudáveis que existem. Após um grande número de indivíduos começar a questioná-la em poucas horas, ela publicou a verdade: era apenas uma brincadeira.

Melissa se utilizou de uma linguagem agressiva e de referências parciais de trabalhos acadêmicos para "demonizar" a couve. No entanto, as citações tinham a ver com compostos químicos da couve analisados de forma isolada. Ela também referenciou estudos de outros tipos de couve que não são consumidos pelos humanos, além de "esquecer" de mencionar que os problemas citados poderiam ser eliminados com simples técnicas de preparo, como o ato de cozinhar as folhas.

Dê uma olhada na adaptação do texto que a equipe eCycle fez e veja se você acreditaria nos argumentos:

A couve de folhas é um daqueles vegetais conhecidos pelo consumo diversificado: há centenas de receitas que a envolvem, tanto como prato principal quanto como acompanhamento. E todo mundo pensa que ela é saudável só por ser um vegetal. No entanto, o que poucos sabem é que ela contém grande quantidade de substâncias químicas em sua composição, que podem causar efeitos indesejados à saúde e ao meio ambiente.

Em termos de impactos na pecuária, descobriu-se que certos cordeiros estavam adquirindo bócio por conta da alimentação à base de couve. A partir disso, pesquisadores se detiveram no estudo do vegetal e verificaram que a couve contém goitrogênica (responsável pelo surgimento do bócio) e tiocianato, que é quimicamente muito semelhante ao cianeto. Alguns cordeiros nasciam e logo morriam porque tinham o cérebro atrofiado pelo bócio. O consumo de couve tinha bloqueado a capacidade de funcionamento correto da tireoide.

A couve também é rica em enxofre e compostos que se convertem em enxofre, que é a substância química responsável pelo mau cheiro dos ovos podres. Um metabólito de enxofre é conhecido por provocar o “envenenamento couve”, que é uma anemia hemolítica caracterizada pela produção de anticorpos que reagem contra os glóbulos vermelhos. A má digestão do enxofre, por sua vez, está associada a doenças graves em seres humanos. Ela também contém lectinas, que são relacionadas a doenças inflamatórias e autoimunes e muito semelhantes à perigosa lectina de aglutinina de gérmen de trigo.

E não para por aí. Algumas pessoas pensam que a couve e outros vegetais previnem o câncer, mas estudos epidemiológicos de grande escala mostraram que o efeito é zero e que seus fitoquímicos podem até mesmo causar o câncer. Por exemplo, indol e seus derivados têm sido apontados como causadores de muitos tipos de câncer, possivelmente sendo responsáveis por desequilíbrios hormonais ou estimulando o citocromo P450, que produz metabólitos genotóxicos

Os chamados antinutrientes também estão presentes na couve. Eles roubam vitaminas e minerais importantes do corpo e irritam o sistema digestório, incluindo o oxalato, ácido fítico e taninos. Resumindo, consumir couve é como comer um coquetel de substâncias químicas imunogênicas e bioativas prejudiciais à saúde.

Meio ambiente

Assim como ocorre com grande parte dos itens agrícolas, a produção comercial e industrial de couve em larga escala exige a limpeza de grandes terrenos (prejudicando habitats naturais para diversas espécies) e o extermínio de animais. Outro problema é a necessidade de água para irrigação durante os meses quentes do ano. Além disso, a couve precisa ser fertilizada em excesso, e muitas fazendas utilizam o fertilizante industrial, que consome muitos recursos do solo e traz diversos problemas ambientais (veja mais aqui sobre fertilizantes).

A maneira como a couve é cultivada também aumenta os efeitos negativos sobre a saúde. Para se ter uma ideia, o EWG lista a couve como uma de suas “dúzias sujas” de vegetais mais suscetíveis à contaminação por pesticidas. Os agrotóxicos mais utilizados na couve incluem ftalatos, substâncias químicas perigosas conhecidas como disruptores endócrinos, causando estragos nos sistemas hormonais humanos.

Até mesmo a couve orgânica pode ser prejudicial se o pesticida orgânico Laverlam for usado. Isso porque ele pode desencadear reações alérgicas, e o óleo mineral usado na produção orgânica destrói os microhabitats encontrados no solo, que são os lares de uma grande quantidade de organismos. É recomendável ainda tomar cuidado com o cultivo de couve em casa, pois estudos mostraram que alimentos cultivados nos jardins das próprias residências continham chumbo, que é prejudicial ao cérebro.

Calma, é brincadeira

Se você não leu o início da matéria, saiba que é tudo uma brincadeira e a couve faz, na verdade, muito bem à saúde. Fica o alerta para a necessidade de atenção a informações falsas na internet como artigos e às referências científicas feitas dentro deles, além do cuidado com a linguagem utilizada, que pode transformar um produto cancerígeno em algo ameno (como fazem as propagandas de cigarro) ou transformar algo benéfico para a saúde em um item cancerígeno, como foi feito com a couve.


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