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Cozinha comunitária e oficinas de culinária estão entre as atividades pensadas para a promoção de autonomia de moradoras de comunidade vulnerabilizada pelas mudanças climáticas em Recife

Por Camila Doretto em Greenpeace Quem melhor para elaborar as soluções acerca de sua própria realidade do que quem a enfrenta cotidianamente? Por meio da escuta ativa da população local sobre necessidades, desafios e vivências, a comunidade Caranguejo Tabaiares, situada na zona oeste de Recife (PE), tem contado com a mobilização de suas moradoras para trilhar um caminho que perpassa diferentes lutas. As bravas mulheres da comunidade se uniram pelo direito ao território, à cidade, soberania alimentar e autonomia, produzindo resiliência e cuidado diante dos impactos das desigualdades, da crise climática e da ausência do poder público.

Centenária e tradicionalmente pesqueira, a comunidade Caranguejo Tabaiares resiste próxima ao Rio Capibaribe, o que por um lado tornou-se fundamental na relação histórica que fez da pesca fonte de renda de grande parte dos moradores no passado, além de ter influenciado na constituição de sua identidade. Mas, por outro, faz com que ela enfrente as dificuldades provocadas pela crise climática, como enchentes cada vez mais intensas e frequentes. Tudo isso, sem qualquer apoio do poder público para medidas que promovam adaptação e resiliência a esses impactos.

Diante de um contexto de aumento das desigualdades, da inflação, do desemprego, assim como o acirramento do quadro de insegurança alimentar no país, buscar soluções tornou-se indispensável para garantir a sobrevivência. Como acontece em grande parte do mundo nas comunidades mais vulnerabilizadas, em Caranguejo Tabaiares, a maioria das casas também é chefiada por mulheres. Segundo relatórios da ONU,  as mulheres são as chefes de família em 40% dos lares mais pobres em áreas urbanas*.

Considerando que o gênero feminino é maioria entre as populações vulnerabilizadas socioeconomicamente, isso significa que também são as mulheres as mais atingidas pela crise climática. Impactadas desproporcionalmente pelos eventos extremos, as mulheres de regiões periféricas e comunidades tradicionais são as que menos têm condições materiais de enfrentar os efeitos das alterações do clima e as que mais sentem na pele a ausência de políticas de adaptação e mitigação às mudanças climáticas.

E foi liderado por e para essas mulheres, na somatória dessas múltiplas crises, que o Coletivo Caranguejo Tabaiares Resiste! idealizou o projeto “Alimentando o Cuidar”, que contou com apoio e parceria do Greenpeace Brasil para a realização das oficinas em 2021.

“A gente pensa coletivamente. E quando a gente consegue construir algo em benefício de todos, isso é fazer justiça. Estamos lutando por um sonho que é coletivo, de toda uma comunidade”, afirma Sarah Marques, líder comunitária de Caranguejo Tabaiares e consultora Greenpeace Brasil para a elaboração do apoio da organização ao desenvolvimento da primeira etapa do “Alimentando o Cuidar”. Sua fala reflete a luta mais recente pela autonomia das mulheres no território, mas também pela construção de um espaço de trabalho e diálogo que fortaleça a comunidade e seus indivíduos e promova autonomia financeira.

Através do “Alimentando o Cuidar”, o coletivo Caranguejo Tabaiares Resiste! pretende formar uma rede de lideranças femininas atuando para a transformação de sua realidade e garantindo o que muitas vezes o estado negligencia: acesso à alimentação digna, formação para o trabalho, trocas de saberes locais e valorização dos recursos que se encontram dentro da própria comunidade.

Durante a primeira etapa do projeto, entre setembro de 2021 e janeiro de 2022, estão sendo realizadas oficinas de culinária para mulheres, de comunicação, artesanato, a implantação de uma horta comunitária com produção orgânica e de uma rádio que terá sua programação divulgada por alto falantes espalhados pela comunidade, mais conhecida como rádio poste.

“A gente acredita que os cursos de culinária e artesanato podem ser um incentivo para que as mulheres da comunidade se tornem donas de sua vida financeira. Além disso, a comunicação do que estamos fazendo é fundamental não apenas para convidar os moradores da comunidade a participarem das atividades, mas para que o mundo lá fora saiba o que estamos fazendo. Precisamos comunicar para conseguirmos apoio para a continuidade do projeto, mas também para dizermos ao mundo que a gente existe”, afirma Sarah.

Nesta outra entrevista com Sarah, ela falou sobre um dos maiores desafios que a comunidade enfrenta, a higienização social, que é a exclusão das populações em situação de vulnerabilidade das zonas valorizadas da cidade para dar lugar às classes mais altas e privilegiadas; um processo que leva à invisibilização de algumas realidades.  E elas não só decidiram não ceder a essa pressão como escolheram lutar por seus direitos, e o direito a permanecer no território é um deles.

Apesar das mudanças provocadas pela crise climática, como o aumento das enchentes, as mulheres à frente do projeto têm procurado encontrar soluções que viabilizem a implantação de todas as iniciativas. A horta que já está funcionando, e leva o nome de “Alimentando a Resistência”, é um dos exemplos. Ela teve de ser implantada em um local que não fosse atingido pelas cheias, mas tem enfrentado o desafio da falta de abastecimento de água. “Aqui nós não temos água todos os dias, então garantir este recurso é um desafio. Por isso, nós conseguimos um apoio para a realização de um novo modelo de horta suspensa que será irrigada a partir de um sistema de captação da água da chuva”, explica Sarah. O modelo deverá ser replicado nas casas das comunidades.

Todas as atividades têm um papel fundamental na promoção de autonomia e condições materiais necessárias para que as moradoras possam exercer atividades socioeconômicas dentro da comunidade.

A culinária tem um papel importante nesse processo, uma vez que muitas mães da comunidade trabalham (ou trabalhavam, antes da pandemia) em restaurantes de áreas nobres de Recife, tendo de percorrer longas distâncias, em muitos casos com salários e condições precárias e ainda enfrentando grandes desafios para poder criar seus filhos.

Cíntia Lucas da Silva, de 34 anos, está em busca de mais conhecimento para aprimorar seu trabalho com alimentação. “Eu tenho uma barraca em frente de casa onde vendo bolo, acarajé e cachorro quente (entre outros itens). Durante a pandemia, diminuiu muito as vendas. Então eu decidi fazer o curso para aprender mais”, conta. Com mais conhecimento, ela acredita que pode “aprender a cozinhar outras coisas”. “A minha renda hoje está muito baixa e eu não tenho condições de pagar um curso. Eu já trabalho com comida, mas pretendo melhorar (meus conhecimentos) e aumentar a minha renda”.  

Jaciane dos Santos Lima, 25 anos, é dona de casa e decidiu participar da oficina de culinária porque ficou desempregada. Ela vê a iniciativa como uma oportunidade para ela, mas também para outras mulheres de Caranguejo. “Eu decidi participar para ter uma renda para sustentar a minha família. Assim como eu, tem muitas outras mães aqui que precisam disso ter sua renda e dar comida aos filhos, pois muitas estão desempregadas”.

Mas a realização do maior sonho ainda está por vir: a conquista de um espaço para a cozinha comunitária. Atualmente, algumas mulheres já fazem uso da pequena horta orgânica para preparar algumas poucas marmitas que são distribuídas entre as famílias mais pobres da comunidade, porém, esse é um trabalho que ainda está sendo realizado dentro das casas, sem suporte e logística de alcançar a todas as famílias. E a conquista de um novo espaço será fundamental para a criação de um trabalho social, autônomo e solidário. Assim como em muitas outras comunidades, as soluções pulsam, mas é preciso apoio e políticas públicas que enderecem as injustiças sociais e climáticas.


*Texto original com dados da ONU: https://www.un.org/en/chronicle/article/womenin-shadow-climate-change