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A BlackRock é a maior administradora de ativos do mundo, com US$ 10 trilhões sob gestão

Por Anderson Lee e Hayden Higgins em WRI Brasil Quando o presidente da BlackRock, Larry Fink, fala, o mundo tende a escutar. A BlackRock, afinal, é a maior administradora de ativos do mundo, com um recorde de US$ 10 trilhões sob gestão.

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Analisar os detalhes da carta anual que Fink envia às empresas se tornou uma espécie de ritual entre quem acompanha o mundo financeiro, e a carta deste ano, publicada no dia 17 de janeiro, não foi uma exceção. Intitulada “O poder do capitalismo”, a mensagem compartilhou as percepções de Fink a respeito de riscos, oportunidades e o peso que sua instituição, uma gigante do setor, exerce sobre as finanças sustentáveis. A carta aprofunda algumas indicações da preocupação crescente de Fink em relação às mudanças climáticas, conforme menções de cartas anterioresparticipações na COP26 e artigos de opinião, entre outros.

De fato, um dos principais tópicos abordados por Fink ao longo dos últimos anos é uma classe crescente de riscos que ameaçam todas as esferas da economia – os relacionados às mudanças climáticas, seus impactos e a transição para abandonar os combustíveis fósseis. Diferentes empresas, setores e contextos geográficos enfrentam diferentes tipos de riscos climáticos. Mas as mudanças no clima afetarão todos os negócios imagináveis ao longo das próximas décadas, e a BlackRock investe praticamente no mercado inteiro.

As cartas de Fink detalham os planos de sua empresa para lidar com esses riscos e capitalizar a partir de oportunidades associadas. À medida que diminui a poeira levantada pela carta de 2022 e por outros acontecimentos recentes, fomos além das manchetes para analisar a posição atual da BlackRock e o que a empresa pode fazer ao longo do próximo ano.

A seguir estão três áreas que a BlackRock pode atuar para alavancar as finanças sustentáveis.

1. Melhorar suas próprias metas climáticas

Por muitos anos, as empresas concentraram seus compromissos climáticos em zerar as emissões líquidas até 2050.

No entanto, é questionável se um prazo de três décadas vai motivar as corporações, mais focadas em lucros trimestrais – principalmente porque as reduções nas emissões precisam começar agora para termos a chance de impedir os impactos mais severos das mudanças climáticas.

Metas de médio e curto prazo que comecem em 2025 e apresentem avanços a cada cinco anos podem ajudar a amenizar essas dúvidas. É o que a carta deste ano indica que a BlackRock espera das empresas nas quais investe: “Como parte de nosso foco na sustentabilidade, pedimos que as empresas estabeleçam metas de curto, médio e longo prazo para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.”

Esse é um passo positivo da BlackRock, que no ano passado havia solicitado apenas metas para 2050. É um incentivo para a ação antecipada que os cientistas climáticos consideram necessária e reflete as melhores práticas presentes no Net-Zero Standard (padrão de zero líquido) da iniciativa Science-Based Targets. A própria BlackRock, porém, só se comprometeu a zerar suas emissões líquidas até 2050, conforme a carta de Fink de 2021. Uma vez que a companhia está pedindo às empresas metas de curto prazo, deveria dar o exemplo.

Como parte da iniciativa Net Zero Asset Managers (administradores de ativos de zero líquido), a Black Rock deve “estabelecer metas provisórias para 2030 que representem uma parcela justa da redução global de 50% no dióxido de carbono, considerada um requisito pelo relatório especial do IPCC sobre o aquecimento global de 1,5°C.” A BlackRock deve definir uma meta robusta de curto prazo o quanto antes, já que se apresenta como uma liderança nas ações climáticas do setor financeiro.

2. Usar sua influência para pressionar outras empresas a mudar

Fink escreve que “deixar de investir em setores inteiros – ou simplesmente transferir os ativos intensivos em carbono dos mercados públicos para os privados – não vai levar o mundo ao zero líquido”. Essa fala indica que a BlackRock prefere continuar investindo em algumas empresas problemáticas e mudá-las a partir de dentro, com incentivos e pressão, uma estratégia amplamente conhecida como gestão de engajamento ou investimentos.

O engajamento das empresas pode remodelar o setor financeiro. Mas existem compensações tanto no desinvestimento quanto no engajamento. O desinvestimento pode aumentar o custo do capital, mas, como escreve Fink, também pode direcionar os ativos para mercados privados menos responsáveis. O engajamento, por outro lado, evita esse problema, mas pode ser um processo lento e consumir muitos recursos. E nenhuma das duas alternativas necessariamente garante a redução das emissões. O engajamento pode funcionar melhor enquanto o desinvestimento continuar uma ameaça viável.

Administradoras de ativos gigantes como BlackRock, Vanguard e State Street – que alguns chamam de “Três Grandes” – tendem a favorecer o engajamento em detrimento do desinvestimento com base em seu modelo de negócios e no papel que desempenham no sistema financeiro. Muitas vezes descritas como “proprietárias universais”, essas empresas já investiram em todos os setores da economia, em todas as classes de ativos e regiões geográficas. Elas também possuem participações acionárias grandes o suficiente para influenciar as empresas nas quais investem. Ou seja, essas administradoras possuem tanto uma amplitude de diversificação que as torna especialmente preocupadas em relação aos riscos sistêmicos quanto tem participação acionária suficiente para serem levadas a sério por executivos e membros de conselhos. Além disso, como parte de seu modelo de negócios, as receitas baseadas em taxas são proporcionais ao montante de ativos sob gestão, o que as incentiva a continuamente aumentar seus balanços. Se o desinvestimento estiver fora de questão, a BlackRock precisará fortalecer seus esforços de engajamento para ser eficaz.

O histórico recente da BlackRock, mencionado no início do texto, mostra um avanço nessa frente. Depois de campanhas contínuas por parte da sociedade civil, a BlackRock e seus pares no espaço das gigantes da gestão de ativos se tornaram mais atuantes em sustentabilidade a partir das estratégias de engajamento. Mas as melhorias ainda ficam aquém: a BlackRock votou a favor de resoluções de sustentabilidade em 53% das vezes na última temporada de votações, em comparação com um índice médio de 70% por parte dos demais membros da iniciativa Net Zero Asset Managers.

Pela carta, Fink indica que está ciente da necessidade de aumentar esses esforços. A BlackRock tem ampliado a equipe responsável pela administração dos ativos e deve continuar a fazê-lo. Também precisa subir o nível do que é esperado das empresas, além de estabelecer limites mais claros para seus próprios processos internos de votação. Se as mudanças climáticas são uma prioridade, como alega Fink, a BlackRock deve aumentar seu apoio às propostas dos acionistas focadas na ação climática. Os padrões de engajamento precisam ter embasamento científico, especialmente na indústria de combustíveis fósseis, na qual a Agência Internacional de Energia afirma que “nenhum dos investimentos em novos suprimentos de carvão, petróleo ou gás” é consistente com um caminho que leve ao zero líquido até 2050.

Como a BlackRock pode aumentar a pressão sobre as empresas que ignoram as preocupações dos acionistas em relação à sustentabilidade? A pressão coletiva organizada por meio de coalizões como a Climate Action 100+, à qual a BlackRock se juntou em 2020, pode ajudar. O grupo pode derrubar lideranças retrógradas em equipes executivas ou nos conselhos administrativos, como visto na campanha Engine Nº1, da Exxon. Também podem pressionar por políticas públicas, apoiando a implementação da Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima (TCFD, na sigla em inglês), bem como novas estruturas regulatórias para a divulgação de riscos climáticos e despesas políticas não alinhadas ao combate às mudanças no clima. Se a BlackRock pretende manter essas empresas durante a transição energética, tem interesse em vê-las se descarbonizarem – caso contrário, pode acabar carregando o fardo sozinha.

3. Empoderar os clientes a partir de votações e escolhas de produtos

Até aqui, focamos no que a própria BlackRock pode fazer. Só que parte dos esforços de sustentabilidade de uma empresa de gestão de ativos deve se concentrar em ajudar seus clientes a irem mais longe e mais rápido na ação pelo clima e pelo meio ambiente.

Fink reconhece isso em sua carta, ressaltando o objetivo de dar aos clientes “poder de escolha nos votos relativos a ESG” (ESG é a sigla em inglês para “ambiental, social e governança”, uma estrutura para incorporar esses fatores nas decisões de investimento).

Para isso, a BlackRock vai permitir mais opções de voto a investidores institucionais e fundos de pensão, a fim de oferecer a esses proprietários de ativos uma maneira clara e direta de usar seu poder de acionistas. Outras administradoras de ativos devem fazer o mesmo. A BlackRock também indicou, na edição de 2022 de sua Carta aos Clientes, que passará a oferecer novos serviços, estruturas e ferramentas analíticas para ajudar seus clientes a navegarem pela transição rumo ao zero líquido, bem como pelos riscos e oportunidades que vêm com ela. A empresa deve enfatizar a importância da ação climática para seus clientes e continuar a destacar suas vantagens.

A BlackRock também precisa oferecer produtos que promovam mais empoderamento. Isso pode começar com a ampliação das opções de voto para investidores de ETF (sigla em inglês para Exchange Traded Funds ou fundos de índice) e fundos mútuos. Para tanto, são necessários novos e melhores produtos de investimento sustentável. Por exemplo, a BlackRock lançou recentemente nos Estados Unidos seu primeiro Benchmark de ETF alinhado ao Acordo de Paris. A empresa deve continuar ampliando a oferta de produtos sustentáveis. Esses produtos devem incorporar metas de descarbonização e serem capazes de amenizar as preocupações em relação a greenwashing em produtos ESG, ao que a BlackRock não está imune. A empresa também pode promover uma melhor integração entre transição justa, equidade e ESG em suas ofertas-padrão, entre as quais se encontram seus produtos passivos mais poderosos e populares.

Remodelando o debate

Grande parte da carta de Fink aborda a essência do capitalismo e sua relação com mudanças sociais. Ao longo da carta, Fink afirma que o capitalismo de stakeholders e os mercados podem resolver o problema climático – precisamos apenas ajustar alguns incentivos e políticas.

Ao fazer isso, ele fala tanto como participante quanto como proponente do capitalismo de stakeholders, ajudando a definir seu futuro e ao mesmo tempo se beneficiando dele. A BlackRock aumentou sua relevância nos mercados financeiros e está expandindo sua influência junto a líderes políticos – por exemplo, defendendo o uso de dinheiro público como garantias de “primeira perda” para investimentos privados.

Fink está em uma posição privilegiada. E esse privilégio confere responsabilidades. À medida que ele promove os atributos do capitalismo de stakeholders, carrega o ônus da prova e a responsabilidade moral de tranquilizar a opinião pública por meio de ações tangíveis. E, talvez – considerando o sombrio histórico do sistema capitalista de não atender aos avisos da comunidade científica –, ele devesse reconhecer onde o capitalismo de stakeholders pode falhar e apoiar medidas regulatórias como as que mencionamos aqui.

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Fink considera as mudanças climáticas um risco para os negócios – e, para aqueles com experiência suficiente, uma oportunidade de negócios. À medida que Wall Street absorve as lições dos relatórios do IPCC, das conferências climáticas da ONU, e das recorrentes secas e eventos extremos, esse enfoque se torna cada vez mais comum. Isso é bom, mas não é tudo – porque, assim como as mudanças climáticas afetam os negócios, os negócios também estão afetando o clima. Essa materialidade dupla, como tem sido chamada, não pode acabar perdida no frenesi dos investimentos sustentáveis. Para aqueles que acompanham a BlackRock e outros gigantes do setor financeiro, uma questão-chave é saber se Fink e seus colegas reconhecem os impactos reais de seus investimentos e as maneiras pelas quais o setor financeiro precisa trabalhar em conjunto com os governos, a sociedade civil e as comunidades para acelerar e suavizar a transição – um caminho que será mais difícil nas linhas de frente das mudanças climáticas do que no alto comando da economia.


Este artigo foi publicado originalmente no Insights.


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