Dor de cotovelo: a ciência explica

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Entenda como e por que sentimos inveja, a famosa dor de cotovelo

dor de cotovelo

Um dos caminhos encontrados pelos povos antigos para compreender a natureza e o comportamento humano os levou até a mitologia.

Na mitologia greco-romana, por exemplo, há uma série de ensinamentos e mitos que buscavam explicar fenômenos naturais e comportamentais. Os protagonistas desses mitos eram deuses e deusas, criaturas imortais, dotadas de poderes especiais, mas que apresentavam características essencialmente humanas. Nesses termos, as tramas dos mitos estavam sempre permeadas por intrigas, reações passionais, desilusões, vinganças e, principalmente, inveja. E todos eles expressavam uma tentativa de compreender o mundo e a natureza humana.

O que os antigos talvez não soubessem é que aquilo que eles buscaram entender por meio de criaturas místicas e epopeias poderia ser explicado também pela ciência.

Sim, a inveja, aquele sentimento que todos nós já sentimos, pode ser entendido cientificamente. Um estudo desenvolvido pelas pesquisadoras Mina Cikara e Susan Fiske, da Universidade de Princeton, nos EUA, comprovou que a dor de cotovelo não é só uma metáfora. Ela é biologicamente motivada.

Explicando a dor de cotovelo

O prazer que a pessoa que sente dor de cotovelo sente diante do infortúnio do invejado é chamado de Schadenfreude (Schade: pena e Freude: alegria), uma palavra alemã que pode ser traduzida por "alegria maliciosa" ou "alegria no pesar".

O que o estudo das pesquisadoras constatou é que as pessoas são biologicamente condicionadas a sentir o Schadenfreude, principalmente quando alguém que elas invejam é malsucedido ou sofre algum prejuízo. O estudo foi dividido em quatro experimentos diferentes.

No primeiro experimento, as pesquisadoras examinaram as respostas físicas dos participantes, monitorando seus movimentos faciais por meio de uma eletromiografia (EMG), uma máquina que capta a atividade elétrica dos movimentos faciais. Aos participantes foram mostradas fotografias de indivíduos associados com os diferentes estereótipos: os idosos (pena), estudantes ou americanos (orgulho), viciados em drogas (nojo) e profissionais ricos (inveja). Essas imagens foram então combinadas com eventos diários, tais como: "ganhou cinco dólares" (positivo) ou "ficou encharcado por um táxi" (negativo) ou "foi ao banheiro" (neutro).

Os movimentos faciais dos voluntários foram registrados à medida que o experimento avançava.

Já na segunda experiência, as pesquisadoras usaram a ressonância magnética funcional para medir as alterações do fluxo sanguíneo, juntamente com a atividade do cérebro, a fim de determinar se os participantes estavam dispostos a prejudicar determinados grupos. Os participantes viram as mesmas fotos e eventos do primeiro estudo e foram convidados a avaliar como eles se sentiam em uma escala de 1-9 (desde extremamente ruim a muito bom). Resultados semelhantes surgiram: os participantes se sentiram mal quando algo bom acontecia com os profissionais ricos e bem quando algo ruim acontecia.

O terceiro experimento envolvia várias situações protagonizadas por um banqueiro de investimentos: na primeira, o banqueiro era ele mesmo, o que incitava inveja. Na segunda, ele estava aconselhando clientes pro-bono, o que incitava orgulho. Na seguinte, ele estava usando seus bônus de trabalho para comprar drogas, o que incitava aversão e, finalmente, na última situação ele estava desempregado, mas ainda se vestia para ir trabalhar, o que teoricamente deveria incitar pena. Nesse experimento, os participantes demonstraram menos afeto e compaixão diante das situações que provocavam inveja e aversão.

Por fim, no último experimento, foram mostradas cenas dos times de beisebol prediletos dos participantes. Eram cenas nas quais haviam jogadas espetaculares e malsucedidas. Como era de se esperar, os participantes demonstraram mais prazer ao acompanhar as cenas em que os seus times prediletos foram exitosos.

Em um segundo momento, foram veiculadas cenas que mostravam a performance dos times rivais aos times prediletos dos participantes. Os voluntários da pesquisa esboçaram felicidade e prazer ao acompanhar o mau desempenho de seus rivais, mesmo quando eles jogavam contra times de pequena expressão. Também foi constatado que, durante as jogadas, os torcedores estavam tendenciosos a xingar, insultar e até a ferir os seus rivais.

Segundo as pesquisadoras, esses experimentos flagram momentos cotidianos de Schadenfreude que estamos todos sujeitos a vivenciar. Para elas, nem toda a falta de empatia por algo ou alguém pode ser considerada como um quadro patológico, uma vez que se trata apenas de uma reação humana. No entanto, o que elas questionam diz respeito à competitividade. Nas palavras de Mina Cikara, de fato em algumas circunstâncias a competitividade pode ser algo bom. Mas, por outro lado, aflorar a competitividade nas pessoas e incitar esse aspecto da natureza humana, como muitas empresas e organizações fazem, pode ser preocupante e provocar rivalidades desnecessárias, que podem causar mal tanto para quem inveja como para quem é invejado.

O doce amargo da inveja

Quando uma pessoa sente dor de cotovelo (inveja), a região do córtex cerebral que é ativada é a mesma região que é ativada quando sentimos dor física. Trata-se do córtex cingulado anterior. Já quando o alvo da inveja sofre algum tipo de infortúnio, a região do córtex ativado no cérebro daquele que inveja é a mesma ativada quando sentimos prazer. Essa região é chamada de estriado ventral.

Esse mapeamento do processamento da inveja foi feito pelo neurocientista Hidehiko Takahashi, do Instituto Nacional de Ciência Radiológico de Tóquio. Segundo o pesquisador, a inveja é uma emoção dolorosa que é acompanhada por uma sensação de inferioridade. É por isso que o invejoso sente prazer ao ver o invejado sofrendo ou fracassando: o infortúnio do invejado faz com que essa sensação de inferioridade seja substituída pela sensação de reafirmação e, sobretudo, de satisfação consigo mesmo.

Um dos males crônicos da nova geração?

Atualmente, tudo é uma corrida até o pódio. O nosso paradigma social é muito competitivo e ser bem-sucedido já não é mais um diferencial. O que realmente importa é ser extremamente bem-sucedido: ser promovido, ser reconhecido e ser altamente produtivo.

A competitividade, inclusive, já se tornou um indicador de desenvolvimento econômico. Em outras palavras, ser competitivo significa ser bem desenvolvido.

O Fórum Econômico Mundial (WEF) desenvolve anualmente um relatório que classifica os países de acordo com a competitividade e os níveis de produtividade a ela relacionados. São analisados fatores como educação, taxa de desemprego e infraestrutura. De acordo com o Relatório Global de Competitividade de 2013-2014, o país mais competitivo do mundo é a Suíça, com uma população de 7,9 milhões e um PIB per capita de US$ 79.033.

Com a medalha de prata ficou Singapura, com uma população de 5,2 milhões e um PIB per capita de US$ 51.162. Já a medalha de bronze ficou com a Finlândia, com uma população de 5,4 milhões e um PIB per capita de US$ 46.098. O Brasil ocupa a 56º posição do ranking, com uma população de 196,7 milhões e um PIB per capita de US$ 12.079.

Testes preliminares, como o descrito nesta matéria, é importante lembrar, não traçam um panorama geral dos sentimentos humanos. O que eles fazem é analisar determinados tipos de reações em contextos específicos. Se o mesmo teste fosse feito em um país oriental, por exemplo, é bem provável que os resultados seriam distintos. E, como as estatísticas acima mostraram, a competitividade está sendo valorizada, algo que certamente não ocorreria se fosse possível realizar uma pesquisa dessa na Idade Média, por exemplo.

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