Mamífero saltava na região central do Brasil há mais de 140 milhões de anos

Pequeno mamífero deixa pegadas Brasilichnium enquanto galopa em duna do deserto Botucatu há 140 milhões de anos

Desenho de brasilichnium
Ilustração: Aline Ghilardi

Brasilichnium é o nome dado pelos cientistas às pegadas fossilizadas do mamífero mais antigo de que se tem conhecimento que tenha vivido no Brasil.

O nome é dado às marcas, uma vez que sobre os pequenos quadrúpedes autores não se sabe quase nada, a não ser que habitavam o paleodeserto Botucatu, imensa área coberta por dunas de mais de 1 milhão de quilômetros quadrados que cobria o centro-sul do Brasil entre 150 e 140 milhões de anos atrás, na transição dos períodos Jurássico ao Cretáceo.

As pegadas foram preservadas em lajes de arenito, um tipo de rocha que originalmente era a areia das dunas. A espécie, ou melhor, a icnoespécie Brasilichnium elusivum (de “ichnos”, que em grego quer dizer pegada), foi descrita em 1981 pelo missionário e paleontólogo italiano Giuseppe Leonardi, com base em dezenas de lajes de arenito retiradas de uma pedreira em Araraquara e também espalhadas pelas calçadas daquela cidade no interior paulista.

Ainda não foram achados na Formação Botucatu esqueletos fósseis de um possível autor das pegadas B. elusivum. Mas pegadas e pistas, essas existem às centenas. No início dos anos 1980, Leonardi estudou lajes com pistas de um pequeno mamífero caminhando. Outras pistas evidenciam um animal correndo ou galopando.

No primeiro semestre de 2017, passados quase 40 anos da descrição original de Leonardi, foram publicados três trabalhos sobre Brasilichnium. Dois deles descrevem duas novas icnoespécies do gênero. Um terceiro trabalho revela que os animais que produziram as pegadas B. elusivum também se locomoviam aos saltos.

Brasilichnium anaiti é o nome de uma nova icnoespécie do gênero Brasilichnium. Trata-se de uma pegada com o dobro do tamanho das pegadas B. elusivum descritas por Leonardi. O animal que as produziu pode, portanto, ter pertencido a outro táxon que não o responsável pelas pegadas B. elusivum.

A descrição de B. anaiti foi publicada no periódico Ichnos. Os autores são o italiano Simone D’Orazi Porchetti e os paleontólogos Max Cardoso Langer, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da Universidade de São Paulo (USP), e Reinaldo José Bertini, do Instituto de Geociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Rio Claro. D’Orazi Porchetti é doutor pela Universidade de Roma “La Sapienza”.

D’Orazi Porchetti analisou lajes guardadas no Museu de Paleontologia e Estratigrafia “Prof. Dr. Paulo Milton Barbosa Landim”, da Unesp, em Rio Claro. Oito lajes preservam pistas teromorfoides, ou seja, que foram feitas por animais do grupo dos mamíferos atuais e seus ancestrais diretos.

Todas as lajes preservam impressões de pegadas bem maiores do que as B. elusivum. Um total de 41 impressões de pés associadas a 19 impressões de mãos foram estudados pela primeira vez. Ao medir as pegadas, D’Orazi Porchetti constatou que elas têm praticamente o dobro do tamanho de B. elusivum.

Enquanto as pegadas de pés de B. elusivum não ultrapassam 30 milímetros de largura, o comprimento médio das pegadas naquelas oito lajes é de 44,58 milímetros e sua largura média é de 61,64 milímetros.

Uma diferença que, associada a outros detalhes morfológicos, justificou a descrição de uma nova icnoespécie, B. anaiti (“anaiti” em tupi guarani quer dizer grande). D’Orazi Porchetti só identificou pistas do B. anaiti em caminhada.

“Na icnologia, descrever uma icnoespécie não é o mesmo que descrever uma espécie extinta, quando descrevemos marcas deixada por animais no sedimento ou em outro meio. Uma icnoespécie define, no caso, um tipo peculiar de pegada. Um nome na icnologia é um modo simples e inequívoco de indicar um conjunto de caracteres”, disse D’Orazi Porchetti.

Langer explica que, na icnologia, “pegadas podem ter nomes diferentes, mesmo pertencendo ao mesmo táxon. Não se deve entender icnotáxons como táxons normais. Mas o B. anaiti, por ser maior, pode ser sim um outro táxon”.

Brasilichnium elusivum também saltava

No segundo estudo sobre Brasilichnium publicado por D’Orazi Porchetti, Langer e Bertini, os autores sugeriram que as pegadas e as pistas de diferentes andares (seja correr, galopar ou o pular bípede) podiam ser chamadas com o mesmo nome, ou seja B. elusivum.

O segundo trabalho foi publicado no periódico Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology. Um total de 109 lajes de diversas dimensões, incluindo 991 impressões de pés e de mãos, a maioria organizada em pistas. Dessas, 65 lajes preservam traços que podem ser descritos como B. elusivum. Um total de 669 impressões de pés foram analisadas, associadas a 135 impressões de mãos.

Segundo o estudo, o modo predominante de locomoção seria a caminhada, seguido pela corrida. Em algumas pouquíssimas pistas D’Orazi Porchetti conseguiu identificar a locomoção aos saltos bípedes.

B. elusivum saltava, mas, levando-se apenas em conta as evidências deixadas nas lajes, tratava-se sem dúvida de um modo de locomoção secundário.

“Todas as pistas feitas por animais caminhando e saltando são ascendentes (85,6% do total de pistas analisadas), foram feitas quando os bichinhos subiam as dunas. Por outro lado, todas as pistas do animal correndo são descendentes”, disse D’Orazi Porchetti.

Brasilichniumsaltatorium

O terceiro trabalho sobre Brasilichnium, publicado em janeiro, descreve uma terceira espécie. No caso, não foi o tamanho ou a morfologia que contou na hora da descrição, mas o modo de locomoção. As lajes com pegadas B. saltatorium revelam um animal saltitante, como o próprio nome indica.

A descrição de B. saltatorium foi feita pelo doutorando Pedro Victor Buck, com orientação de Marcelo Adorna Fernandes, do Laboratório de Paleoecologia e Paleoicnologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e coautores. O trabalho foi publicado na Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology.

O estudo foi feito com 12 lajes coletadas na pedreira São Bento, de Araraquara, e depositadas no Laboratório de Paleoecologia e Paleoicnologia da UFSCar. Nenhuma dessas lajes foi usada no estudo original de Leonardi, que em 1977 descreveu em artigo pistas de Brasilichnium saltando, ricocheteando e galopando.

“Conseguimos determinar o comportamento saltador de B. saltatorium pela análise morfológica da pista. A configuração dos pés e das mãos na pista indica que o único movimento possível seria o salto, uma vez que cada conjunto de pé e cada conjunto de mão encontram-se alinhados e distantes entre si”, disse Buck.

“Foi realizado um experimento de neoicnologia com um animal que apresenta locomoção saltatorial, o gerbo ou esquilo-da-mongólia (Meriones unguiculatus). A comparação da pista deste animal vivente com as pistas fósseis mostra grande semelhança, permitindo uma inferência direta”, disse.

Como saber se foi o mesmo grupo animal que deixou preservadas para a posteridade pegadas caminhando, correndo, galopando ou saltando?

“Entre os paleoicnólogos existe uma escola de pensamento que propõe usar nomes diferentes para definir os andares diferentes, também no mesmo morfótipo. Este é o caso de B. saltatorium”, disse D’Orazi Porchetti. “Então, B. elusivum compreende também marcas de saltos, as quais por outros autores merecem um nome especifico: B. saltatorium.”

Segundo Buck, “na nossa interpretação para a icnotaxonomia de Brasilichnium, a classificação em uma nova icnoespécie B. saltatorium é parcimoniosa, pois são encontrados em uma mesma pista os dois comportamentos de locomoção, caminhando e saltando, o que atesta a sua produção por um mesmo organismo. Quando são comparados os dois tipos de locomoção é observada uma ampla diversidade comportamental que se reflete na morfologia total da pista, o que sustenta a nova classificação para o movimento”.

Em suma, os produtores dos icnogêneros B. elusivum e B. saltatorium caminhavam e saltavam. Mas isso justifica realmente a descrição do novo icnogênero B. saltatorium?

Leonardi acha isso questionável. “É muito discutido entre os icnólogos se novos táxons devem ser instituídos para tipos de pistas que dependem somente de andares diferentes, como é o caso. Seria como instituir um táxon para a pista de um cachorro andando e outro para um cachorro correndo ao galope. Pessoalmente, evito multiplicar os táxons, porém admito que, para fins de compreensão entre os especialistas, possa ser útil se ter alguns táxons a mais”, disse.

Leonardi trabalhou como missionário no Brasil entre 1974 e 1989, e depois foi fazer trabalho missionário no Congo. Hoje aposentado, retornou à sua cidade de origem,Veneza, onde se mantém intelectualmente ativo, pesquisando icnofósseis brasileiros.

Mamíferos do Gonduana

A constatação de que o animal das pegadas B. saltatorium podia se locomover aos saltos pode parecer irrelevante, mas não é. Baseado no estudo de fósseis de mamíferos mesozoicos, já se sabia de exemplares que viveram há 150 milhões de anos e podiam caminhar, correr, galopar, nadar, e até mesmo planar. Mas pular, isto ainda não se tinha a plena certeza.

A sugestão de que o animal responsável pelas pegadas B. saltatorium saltava é uma das únicas evidências de que tal modo de locomoção, hoje tão comum entre os cangurus, por exemplo, já fazia parte do leque de opções locomotoras dos mamíferos da era Mesozoica, aquela dominada pelos dinossauros.

Há somente três icnogêneros de mamíferos mesozoicos saltadores: a pegada Ameghinichnus patagonicus do Jurássico da Argentina, uma outra nos Estados Unidos e outra ainda na Coreia do Sul. E agora de Brasilichnium.

Há diversos exemplos de pistas e pegadas supostamente deixadas por mamíferos mesozoicos. No caso específico de Brasilichnium, pegadas idênticas às descritas por Leonardi foram encontradas nos anos 1990 nos desertos do oeste dos Estados Unidos (nos estados do Arizona, Califórnia, Nevada e Utah) e norte do México, ampliando e muito a distribuição espacial do icnogênero.

Em 2015, D’Orazi Porchetti constatou igualmente a presença das pegadas Brasilichnium no Cretáceo inferior da Namíbia, na África, há 140 milhões de anos.

É aproximadamente a mesma idade das pegadas Brasilichnium no Brasil, o que não surpreende, dado que naquela época, pouco antes da abertura do Atlântico Sul, a América do Sul e a África ainda se encontravam unidas no supercontinente Gonduana, e a Namíbia era colada ao Rio Grande do Sul.

Brasilichnium é um dos gêneros melhor representados no registro icnológico mundial”, disse D’Orazi Porchetti.

A descoberta de Brasilichnium nos Estados Unidos recuou dramaticamente a presença do icnogênero para todo o período Jurássico, de 145 milhões para 200 milhões de anos atrás. Já as pistas mexicanas são bem mais recentes, do Cretáceo superior, entre 85 milhões e 70 milhões de anos.

Portanto, há pegadas e pistas Brasilichnium gravadas na areia durante um intervalo de tempo de 130 milhões de anos. Mas isso não quer dizer que o marcador do icnogênero Brasilichnium fosse uma mesma espécie biológica que existiu por 130 milhões de anos, algo que seria extremamente improvável, pois o registro fóssil indica que as espécies sobrevivem, em média, cerca de 5 milhões de anos, desde a sua evolução até sua extinção.

Assim, quando se diz que há pegadas Brasilichnium com idades entre 200 milhões e 70 milhões de anos na América do Norte, na América do Sul e na África, o que se pretende afirmar é que havia naqueles continentes durante aquelas épocas grupos de animais capazes de deixar pegadas com aquelas determinadas características, aquele tamanho específico, cujas patas traseiras eram maiores do que as dianteiras, que todas tinham quatro dedinhos funcionais – e que tais animais habitavam ambientes muito áridos onde havia dunas esculpidas pelos ventos.

“As pegadas foram feitas por táxons diferentes, mas não muito diferentes em termos de anatomia e de ecologia. Nesse sentido, as pegadas Brasilichnium são muito mais um parâmetro ecológico do que cronológico. São importantes para tentar correlacionar bioestratigraficamente aqueles depósitos desérticos, que são muito pobres em outros fósseis”, disse Langer.

Não se pode afirmar que os autores de todas as pegadas Brasilichnium eram mamíferos. Os animais que produziram as pegadas brasileiras de cerca de 140 milhões de anos, e as pegadas mexicanas entre 85 e 70 milhões de anos, eram muito provavelmente mamíferos. Os fósseis mais antigos de mamíferos de que se tem notícia têm entre 170 milhões e 160 milhões de anos.

Por outro lado, os autores da pegadas jurássicas dos Estados Unidos, feitas entre 200 milhões e 150 milhões de anos, pertenciam quase certamente ao grupo dos terapsídeos mamaliamorfos, ou seja, os ancestrais diretos dos mamíferos.

Todas as lajes com pegadas preservadas nas coleções estudadas pelos autores foram extraídas da pedreira São Bento, que funcionou até 2003 em Araraquara. Trata-se de uma paleoduna, uma antiga duna de 20 metros de altura e 100 metros de comprimento, cuja areia virou arenito. Isso ocorreu entre 135 e 125 milhões de anos atrás, quando erupções vulcânicas cataclísmicas derramaram um mar de lava sobre as regiões Sudeste e Sul, eventualmente originando, pelos processos erosivos subsequentes, as montanhas da Serra Geral.

Colunas de lava com centenas de metros de altura cobriram as dunas do interior de São Paulo. Foi esse o arenito retirado da pedreira São Bento na forma de lajes para assentar nas calçadas de Araraquara. É também a origem do arenito dos mosaicos de pedra portuguesa, tão comuns nas calçadas brasileiras.



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